Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Adeus a Michel Serrault

Cultura

Luiz Carlos Merten

31 Julho 2007 | 17h59

E foi-se também o Michel Serrault. Era uma figura, o Serrault. Ele começou no vodevil – vá lá que seja, no vaudeville – e ganhou projeção internacional fazendo o (a) travesti Naná de A Gaiola das Loucas. Era uma bela criação, no fio da navalha da humanização e do patetismo ridículo, que fazia a gente rir tanto, mas eu confesso que prefiro o Serrault macho de dois filmes cujo título não me lembro, mas vocês me recordam ao comentar. O do Chabrol com Serrault e a Isabelle Hupert, em que eles são dois golpistas (alguma coisa com dinheiro), e o do Sautet com a Emmanuelle Béart e ele (alguma coisa como Nelly et Monsieur… – como se chamava mesmo o cara?). Sautet era um diretor maravilhoso. Fez filmes belíssimos a partir de As Coisas da Vida. Precisava de pouca coisa para dizer tudo sobre os personagens. O de Serrault usava umas gravatas – lembram-se das gravatas dele? O cara era bem-sucedido, um burguesão reprimido. Aquelas gravatas liberavam seu desejo de transgredir. E Serrault as usava com uma seriedade, uma dignidade. Foram-se Bergman, Antonioni, Serrault – mas Sautet também me faz falta. Foi o tipo do diretor que só obteve reconhecimento após a morte. Bergman e Antonioni pelo menos tiveram em vida. Adorei o comentário de Woody Allen no Corriere de La Sera sobre a morte de Bergman. Espero que tenha sido reproduzido pelo Estado – “Foi o maior dos cineastas. Tinha medo de morrer numa dia ensolarado. Espero que Bergman, ao morrer, tenha tido o tempo que queria.”