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Cultura » Across the Universe, de novo

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Luiz Carlos Merten

07 Outubro 2007 | 12h05

Ainda não li os comentários de ontem e não sei se alguém respondeu à minha pergunta, mas estava fechando o computador quando me lembrei do segundo grande filme de ação do ano – Bourne, claro! Quero voltar rapidinho ao ‘Across (é com um C só) the Universe’. Quando o filme estava começando, ontem na Mostra, e pintou aquele clima de musical, contando uma história cujos personagens permitem retraçar a grande História (assim, com maiúscula), Alessandro Giannini, que estava na poltrona de trás, me bateu no ombro e disse – “Mas é o Scola, O Baile!” Não falei com ele no fim, mas não creio que seja ‘O Baile’. É mais ‘Vozes Distantes’, de Terence Davies, um dos mais belos filmes da história do cinema inglês (embora eu não esteja muito certo se o diretor alguma vez teve reconhecimento à altura do seu talento). ‘Distant Voices, Still Lives’ contava uma história da classe operária inglesa por meio da música. Julie Taymor, que havia dirigido a Frida Khalo de Salma Hayek, parte daí, da classe operária inglesa, de Liverpool, onde surgiram os Beatles, e joga sua narrativa estilizada do outro lado do Atlântico para que Terence Davies encontre o espírito libertário do Milos Forman de ‘Hair’ (e, nas cenas dos conflitos raciais, ela homenageia o Forman do genial ‘Na Época do Ragtime’). Não creio que, para o espectador curtir ‘Across the Universe’ ele tenha de fazer estas pontes, ou ter visto estes filmes. Mas as conexões são possíveis e não custa situá-las. Aliás, há tempos quero falar do Terence Davies. Havia trazido de Londres, no ano passado, o caderno de Variedades de um daqueles jornais bem tradicionais. Encontrei-o num bolso da mala, muito tempo depois, e havia uma entrevista do Davies, muito amargurado, porque não consegue dinheiro para fazer mais nada. Há pelo menos sete anos, desde ‘A Essência da Paixão’ (The House of Mirth), que adaptou de Edith Wharton, Davies caiu neste limbo. Havia sido seu filme mais caro, com uma estrela de Hollywood (Gillian Anderson), foi razoavelmente de público, muito bem de crítica – eu, por exemplo, acho que, como adaptação de EW, é melhor do que ‘A Era da Inocência’, do Scorsese -, mas não melhorou a situação de Davies na indústria. Ele paga o preço do seu experimentalismo. O cinema dele é rigorosamente autoral. Conversei com Davies uma vez por telefone e, depois, reencontrei-no no Rio, onde veio lançar ‘A Essência da Paixão’ no festival de 2000. Davies me impressionou muito. Nascido numa família pobre de dez filhos, assumidamente gay, suas dificuldades para virar diretor estavam mais para o 3º do que para o 1º Mundo. Só para fechar o entre-ato sobre Terence Davies. Entrevistei-o em Cannes quando lançou ‘The Neon Bible’, que se chamou no Brasil ‘Memórias’, com Gena Rowlands e um garotinho chamado Jacob alguma coisa. Lembro do Jacob, porque também o entrevistei, e ele me perguntou se havia gostado do filme. Respondi que nem tanto, ou menos do que dos outros filmes do Davies, ‘Madonna and Child’, ‘Vozes Distantes’ e ‘O Fim de Um Longo Dia’. Ele me disse uma coisa linda – tão pequeno e já tão perspicaz – “Disfarça, não conta para ele (Davies), porque se não ele fica muito triste.”

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