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Luiz Carlos Merten

27 Julho 2008 | 17h41

Já dei minha cara a bater defendendo ‘Era Uma Vez’, de Breno Silveira, na edsição de sexta-feira do Caderno 2. Não vou dizer que gostei ‘inclusive’, porque eu gostei ‘especialmente’ do final, que me fez repensar o filme todo e lhe deu um sentido muito bacana. Digo isso porque tem gente espinafrando o desfecho de ‘Era Uma Vez’. Como era mesmo a expressão do Macunaíma? ‘Que cansaço!’, por aí. Como já fui contra corrente em ‘Era Uma Vez’, deixem-me agora ir fundo em ‘Arquivo X’. Acho que nunca tinha visto a série na TV e, quanto ao primeiro filme, não gostei. Mas o segundo… Achei muito legal. O roteirista e aqui também produtor e diretor Chris Carter fez muito bem em dar adeus à mitologia alienígena de ‘Arquivo X’. O novo filme substitui o fantástico pelo terror à ‘Seven’ ou ‘Albergue’. Começa com o desaparecimento de uma agente do FBI. Mulder e Scully, isto é, David Duchovny e Gillian Anderson, são chamados a investigar. Há um paranormal na trama e é um ex-padre pedófilo. Achei o personagem quase tão bom quanto o molestador de crianças que se automutila em ‘Pecados Íntimos’, de Todd Field. ‘Arquivo X – Quero Acreditar’ opõe o tempo todo o físico e a mente. Os personagens são atormentados por seus desejos e/ou razões de consciência. Mulder e Scully estão separados. Ele se esconde, ela é médica e enfrenta a crise de um paciente, um garoto, terminal. Scully despreza o médico – como mulher, como mãe -, mas recorre a ele e ouve a frase-chave, ‘Não desista’. Do quê? Chris Carter diz que fez o filme para mostrar que a dupla Mulder/Scully ainda tem o que dizer ao mundo atual. Após o 11 de Setembro, as teorias conspiracionistas da série ficaram suspeitas numa Hollywood paranóica, mas não acredito que tenha sido só por isso que ‘Arquivo X’ acabou. Os motivos foram mais profundos. Duchovny se achava o bambambã e queria fazer cinema. Tentou, deu-se mal e seu retorno agora serve ao personagem (e ao ‘enredo’). Há uma subtrama sobre tráfico de órgãos. Perfeito. Os corpos divididos acompanham as mentes divididas. Para quem foi bater ponto – meu lema é ver todos os filmes que estréiam, sem exceção – confesso que me senti bem estimulado a pensar e gostei do clima macabro, mórbido. Peter Fincher (‘Seven, os Sete Crimes Capitais’) fez escola, mas me poupem de dizer que o filme dele é melhor. Também acho, mas isso não tira o fato de que ‘Arquivo X’ me surpreendeu. O que não me surpreendeu foi a Scully, Gillian Anderson. Desde ‘The House of Myrth’, de Terence Davies, baseado em Edith Wharton – e que ganhou um título estranhíssimo no Brasil -, já sabia que ela é maravilhosa. ‘Arquivo X – Eu Quero Acreditar’ é mais uma confirmação da excelência da atriz.