Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Acorda quem?

Cultura

Luiz Carlos Merten

11 Maio 2007 | 14h07

César Murilo pede que eu acorde. Diz que cinema é um arte de equipe e que é bobagem ficar falando do diretor, embora, obviamente, seja ele, quando é bom, o autor do filme. O César pergunta o que seria de Visconti sem Suso Cecchi D’Amico, de De Sica sem Zavattini e enumera os filmes escritos por Robert Bolt. Vamos por partes, como diria o seqüestrador. Por que não inverter a pergunta? O que teria sido de Suso, grande escritora, sem Visconti? De Zavattini sem De Sica? Ambos escreveram roteiros para diversos diretores. Suso não era exclusividade de Visconti nem Zavattini, de De Sica, mas por que os filmes bons que os dois escreveram são desses diretores? E por que a unidade temática, quando existe, é do diretor, não do roteirista? O próprio César Murilo se entrega, porque não se pode colocar no mesmo nível Lawrence da Arábia, Doutor Jivago, O Homem que não Vendeu Sua Alma e A Missão. Lawrence é o melhor de todos, mas Lawrence e Jivago ilustram uma visão do mundo (e das revoluções, como momentos excepcionais da história dos homens) que fecha com a de outros filmes que David Lean dirigiu e não com os de Fred Zinnemann, que tem o crédito de O Homem Que não Vendeu Sua Alma, e menos ainda Roland Joffe, de A Missão. Estamos falando de roteiristas, mas e os montadores? Stanley Kubrick dizia que cinema é montagem. Para ele, o roteiro tinha um pé na literatura, a interpretação, no teatro e por aí afora. Só a montagem era o cinema puro. Pois bem – alguém se lembra do nome dos montadores dos filmes do Kubrick? Eu, particularmente, confesso que não. Seriam eles os autores de 2001, de A Laranja Mecânica? O cinema é uma arte de equipe porque ninguém faz um filme sozinho, concordo, mas toda aquela gente não está ali para expressar sua visão de mundo e se o filme tem uma, é a do diretor. A própria Suso, com quem me encontrei em Veneza, depois me deu seu telefone e conversamos diversas vezes, ao longo dos anos. Suso talvez nem seja um bom exemplo, porque ela venerava Visconti. Mas Suso nunca, nem de longe, me aventou a possibilidade de que ela pudesse ser autora dos filmes do grande Luchino. Do que ela se orgulhava era de certas contribuições que ajudavam a engrandecer os filmes. Na entrevista com Sam Raimi, sobre O Homem-Aranha 3, ele queria dividir o crédito com o irmão, mas Ivan Raimi dizia – eu só ajudei a criar a história, ele dirigiu. E ambos elogiavam Alvin Sargent, o grande roteirista de Júlia, de Fred Zinnemann (pelo qual ganhou o Oscar). Sam dizia que sempre que tinha um problema de roteiro, Alvin apresentava a solução. Sam Raimi sabe tudo de quadrinhos. Agora me digam – quem é o autor do Homem Aranha 3? Ele ou o Alvin Sargent? Comparem o filme com Júlia e encontrem a resposta. Meu amigo César, estou acordado. Sei muito bem que o cinema é uma arte de equipe, mas isso não significa que a visão de mundo que um filme proporciona deva ser pulverizada entre todos os integrantes da dita equipe. Gordon Douglas fez filmes de todos os gêneros, em todos os estúdios de Hollywood. Nunca escreveu uma linha ou pelo menos nunca teve crédito em seus roteiros, que não eram assinados só por uma pessoa. E, no entanto, no cinema dele há uma unidade que nasce do ato de filmar. Ia escrever – acorde você, César. Vou empregar o gauchês – acorda tu, ó cara.