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Luiz Carlos Merten

07 Outubro 2006 | 10h08

Falei ontem, aqui, do documentário do Evaldo Mocarzel Do Luto à Luta na perspectiva da filha dele, a Joana, que faz Clarinha na novela Páginas da Vida. Joana foi o motor para que o Evaldo fizesse seu filme sobre portadores da Síndrome de Down, mas ele não fica só dirigindo sua câmera para a filha. Evaldo encontrou personagens maravilhosos, como a Rita e o Abel, que até se casaram, imagens incorporadas ao documentário. Abel e Rita fazem o filme dentro do filme. Um constrói seu efeito à Spielberg, a outra mata a mãe, na ficção, para forçar o pai a assumir seu papel. Evaldo não conduziu o olhar de Abel nem de Rita, mas o tema da rejeição paterna permeia Do Luto à Luta. Há homens que não têm estrutura, que não sabem como lidar com filhos downianos. Não é um apoio, não é uma desculpa para o que eles fazem, mas uma constatação. Seja como for, o filme dentro do filme coloca um tema importante nos documentários de Evaldo Mocarzel. Ele pode estar falando de moradores de rua (À Margem da Imagem), de parteiras da Amazônia (Mensageiras da Luz), de downianos (Do Luto à Luta). A questão da imagem, a questão da linguagem é sempre decisiva. Acho um equívoco que ele termine seu filme sobre a defesa do parto natural (Mensageiras) com a cesária de seu filho Mateus. A metáfora é clara, o nascimento do filho e do filme como coisas unitárias na cabeça do pai autor. Mas há ali, também, uma apropriação que não me convence das idéias de Dziga Vertov, por quem Evaldo é louco (deve ser um dos autores preferidos dele, com o Bresson). E é um absurdo fechar um filme que fica falando do parto natural com uma cesariana. A linguagem, de qualquer maneira, está sempre presente, incorporada aos filmes. Os personagens do Evaldo são sempre confrontados com o audiovisual. Os moradores de rua se olham na tela, as parteiras se refletem no monitor e o casal de Do Luto à Luta faz o próprio filme. Evaldo nem sempre acerta, mas sua obra de documentarista já é importante. Ele acaba de ganhar o prêmio da categoria na Première Brasil de 2006, no Festival do Rio. À Margem do Concreto trata de ocupações urbanas. Tem uma grande cena – quando a assembléia dos ocupantes do prédio se reúne para discutir a questão do casal que ameaça prejudicar o movimento com seus problemas. Evaldo me disse que é uma das cenas preferidas do Eduardo Coutinho. O casamento do público com o privado. Evaldo, que foi meu chefe no Estado, tem sempre 100 projetos em desenvolvimento ou para desenvolver. Gosto de gente assim.

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