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Luiz Carlos Merten

31 Julho 2007 | 17h32

Tentei me lembrar qual foi meu primeiro Bergman, que vi em Porto Alegre. Antes do Bergman, acho que tenho de falar do P.F. (de Paulo Fontoura) Gastal. Instituição da crítica gaúcha, Gastal colocava o mestre sueco no seu reduzidíssimo panteão de ícones. Eram quantos? Eisenstein, Bergman, Buñuel e Chaplin, de quem ele gostava tanto que adotou o pseudônimo de Calvero, como o personagem de Luzes da Ribalta, para assinar as matérias que escrevia na Folha da Tarde (no Correio do Povo, que, por volta de 1960, era o mais prestigiado jornal do Rio Grande do Sul – ambos pertenciam ao grupo Caldas Jr., que depois ruiu -, ele se assinava P.F. Gastal). Eu ainda não escrevia sobre cinema, mas lia as colunas do Calvero. Sabia do entusiasmo dele por Noites de Circo, por Morangos Silvestres. Demorei a entender Bergman, a perceber o que havia de genial no seu teatro cinematográfico. Ele próprio, descobriu depois, dizia que o teatro era a base do seu cinema, do cinema em geral. Me lembrei do Gastal hoje de manhã. Nesta correria toda que foi chegar a Israel, a passagem por Milão, pelo aeroporto de Malpenza, foi gratificante. Comprei o Corriere de La Sera que estampou na capa – Il Cinema Perde l’Anima. A alma, anima, no sentido junguiano, mais místico e metafísico que propriamente religioso. Que título lindo! E que apropriado para definir o Bergman! O jornal publicou um texto de seu crítico Tullio Kezich. Ele conta como Fellini era ciumento e vivia perguntando de quem Kezich gostava mais, se dele, Fellini, ou de Bergman. Houve um momento em que Fellini e Bergman se envolveram no mesmo projeto. Iam dirigir A Bíblia…no Princípio. Dois cineastas de forte formação religiosa, um católico, o outro luterano, ambos falando da Criação. No final, ambos desistiram e o filme foi feito por John Huston, que pegou um belo pepino (mas o episódio em que ele próprio faz Noé é divertido). Kezich diz hoje que Bergman, como homem de espetáculo, era mais completo (orgânico) porque seu cinema incoporava o teatro, que Fellini detestava. E ele conta uma história que me comoveu, que é típica da grandeza de Bergman. Contei, na capa de hoje do Estado, como ele adorava ver, todo réveillon, A Carroça Fantasma, de Victor Sjostrom, que fez o professor Isak Borg de Morangos Silvestres. Kezich conta que quando Bergman ganhou seu Leão de Ouro de carreira, em Veneza, lhe foi perguntrado o que ele gostaria de fazer, e Ingtmar disse – ver Amarcord, de preferência sozinho, para perceber que um prêmio não é nada e sempre existem outros maiores. Kezich diz que a recíproca nunca seria verdadeira. Fellini bebeu na fonte de Morangos Silvestres para fazer Oito e Meio, mas prefeririia morrer a admiti-lo. Qual foi meu primeiro Bergman? Sei lá, mas acho que foi No Limiar da Vida, a história daquelas mulheres grávidas, parindo no hospital. Não achei muito impressionante e também não me impressionei muito com Noites de Circo. Mas, depois, Morangos Silvestres, O Sétimo Selo, Quando Duas Mulheres Pecam e Gritos e Sussurros viraram obras do coração. No livro com a coletânea das críticas que escrevi em Porto Alegre, tem uma que eu pedi, especificamente. Deixei a cargo do pessoal de lá, do núcleo de cinema da Prefeitura (na gestão do PT) e da Usina do Gasômetro, a seleção, mas aquela eu disse que queria – O ABC de Gritos e Sussurros, em que decomponho meu amor pelo filme num abecedário para captar toda a sua riqueza. Gosto de outos filmes do Bergman – Sorrisos de Uma Noite de Amor, O Rosto, Luz de Inverno, A Hora do Lobo, A Flauta Mágica, Saraband (de que eu gosto mais que de Cenas de Um Casamento) -, mas os do coraçãso são Morangos Silvestres e Gritos e Sussurros. Um road movie existencial centrado num personagem masculino, um velho que decifra o enigma de sua vida, e um filme feminino, que Truffaut comparou a um útero. Não conheço nada mais belo do que a derradeira imagem de Gritos e Sussurros. As três irmãs e a aia, depois de tudo o que nós vimos que elas sofreram, passeiam naquele jardim,. A vida vale a pena, dizia Bergman, que filmou o sofrimento, a angústia existencial como ninguém. Vale a pena, sim. A obra dele é das maiores. Gastal estava certo. Não tenho condições de escrever agora sobre Antonioni. A admiração por ele é mais fria, mais intelectual. Por Bergman, confesso que estou chorando. Um cara lá da Suécia. Não tinha nada a ver comigo no Rio Grande do Sul. Nada? Tinha tudo, mas eu precisei de tempo para perceber.