Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » A violeteira

Cultura

Luiz Carlos Merten

15 Dezembro 2008 | 15h40

María Antonia Alejandra Vicenta Elpidia Isidora Abad Fernández. Entrevistei certa vez Sarita Montiel pelo telefone, numa das vezes em que ela veio ao Brasil, ciceroneada pelo Ovadia, que fazia assessoria do Grupo Maksoud, quando o hotel ainda tinha prestígio e realizava eventos de certa magnitude. As pré-estréias do Maksoud eram semanais e imperdíveis, ocorriam shows. A própria Sarita me disse que o nome quilométrico – tive de pesquisar – com que estou abrindo o post era dela e que Montiel veio da província em que nasceu, num lugar chamado Ciudad Real. No cinema desde 1944, ela já tinha quilometragem diante da câmera quando fez ‘Vera Cruz’, com direção de Robert Aldrich, dez anos mais tarde. (Havia feito uma prestigiosa versão de ‘Dom Quixote’ dirigida por Rafael Gil em 1947.) De volta a ‘Vera Cruz’, Gary Cooper e Burt Lancaster eram os astros, formando uma dupla de aventureiros norte-americanos no México do imperador Maximiliano, por volta de 1860. Sarita fazia uma mexicana – seus primeiros papéis (não foram muitos) em Hollywood eram ‘exóticos’. Logo em seguida ela foi uma índia em outro western, ‘Renegando Meu Sangue’ (Run of the Arrow), de Samuel Fuller, que foi rebatizado e relançado anos mais tarde para aproveitar o fato de que Charles Bronson, que também faz um pele-vermelha, havia virado astro. Sarita ainda fez mais um filme em Hollywood, ‘Serenata’, dirigido por Anthony Mann, com quem se casou, e que era uma coisa horrorosa, indigna não apenas do grande cineasta, mas também do original em que se baseava – sou capaz de jurar que era do noir James Cain. Retornando à Espanha, e projetada internacionalmente, ela iniciou com ‘Em Último Cuplé’, em 1957, a série de melodramas que defini como ‘atrozes’ e que foi seguida por ‘La Violetera’, ‘Carmen la de Ronda’, ‘Mi Último Tango’, ‘Pecado de Amor’. Todos esses filmes eram distribuídos no Brasil pela Condor, que também trazia os filmes da série ‘Sissi’, com Romy Schneider, e os de Joselito e Marisol, mas também alternava esses lançamentos comerciais com alguns filmes de ‘arte’. Lembro-me que a grande farra da gente era assobiar na abertura dos filmes da Condor, quando a ave abria as asas e descrevia seu vôo na tela. Sarita, enfim, fazia tanto sucesso que, em 1954 estrelou uma aventura brasileira – e claro que o filme se chamava ‘Samba’. Nenhum dos filmes espanhóis de Sarita entrou para a história. Eram assinados por diretores medíocres como Enrique Alarcón, Tulio Demicheli e Luis César Amadori, mas Sarita não podia se queixar de seus galãs – Raf Vallone, Jorge Mistral, Maurice Ronet. Este último, com quem fez ‘Carmen’ e ‘Meu Último Tango’, era o mesmíssimo grande ator que dividia a cena com Alain Delon em ‘O Sol por Testemunha’, de René Clément, e fez o suicida de ‘Trinta Anos Esta Noite’ (Le Feu Follet), que Louis Malle adaptou do romance de Drieu de la Rochelle, uma das maiores interpretações masculinas da história do cinema francês. Os melodramas de Sarita fizeram dela a freira, a mãe sofredora e a p… de bom coração. Sarita sofria o dia na mão dos homens, mas não é sempre assm no gênero? O problema é que ela cantava e, por isso mesmo, seus filmes estavam mais para Libertad Lamarque do que para as tragédias familiares de Douglas Sirk. Mas, sim, a jovem Sarita era uma deusa com sua carnação exuberante que incitava ao pecado do prazer solitário (vocês entendem do que estou falando). Hoje à noite, acho que às 22 horas, a Rede Brasil exibe ‘Vera Cruz’. Boa oportunidade para se rever, de uma tacada, Robert Aldrich, Gary Cooper, Sara Montiel e Burt Lancaster. Sarita é a única sobrevivente desse grupo. Fecho os olhos e a vejo oferecendo suas violetas, ‘que no valen más que um real’. Só lamento que Pedro Almodóvar, que a homenageou – onde mesmo? Em ‘Mala Educación’, seu filme mais autobiográfico? -, tenha sempre resistido à tentação de ser óbvio. Sarita Montiel nasceu para ser heroína de Almodóvar, mas teve a infelicidade de ter nascido muito antes. Já pensaram ‘La Montiel’ num filme de Pedrito? Ia ser pluma para todos os lados…

Encontrou algum erro? Entre em contato