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Luiz Carlos Merten

19 Julho 2010 | 11h01

Cheguei ontem e, na entrada da Marginal, tomei um choque. Estava em casa. Depois de toda aquela obra monumental no rio, é chocante ver o Tietê continuar o lixo que tem sido nos últimos anos. O Tâmisa também era um rio poluído, mas os ingleses conseguiram salvá-lo e Hitchcock, como bom british, até ironizou o fato em ‘Frenesi’. Na época, começo dos anos 1970, a recuperação do Tâmisa era recente e o que fez o mestre do suspense? Começou o filme com um detrito boiando no rio e era um cadáver, um boneco que o reproduzia (a ele, Hitchcock). Havia, naquilo, um recado subliminar. A poluição é provocada pelo instinto predador do homem etc. Na entrada da Marginal, havia ontem aquela mancha de espuma e, depois, por uns bons quilômetros, era possível ver o lixo, muitos sacos de plástico, boiando no rio. Imagino que os sócios internacionais no salvamento do Tietê devam adorar ver essas imagens. Mas será tão difícil vigiar e punir, já que a educação parece difícil, quem faz isso? O rio continua recebendo a poluição produzida na área ou será que não entendi nada e aquilo era parte da operação ‘limpeza’? O pior estava por vir. Depois de passar em casa, fui ao centro, onde almocei (e terminei vendo ‘A Marca da Pantera’, de Paul Schrader, no ciclo Tarantino, na Galeria Olido). Justamente, o Largo Paissandu. Ali se localizam a Galeria do Rock, a Igreja de Santa Ifigênia e o Olido, cujo prédio abriga a Secretaria Municipal de Cultura. Digamos que é uma área movimentada, senão ‘nobre’, da cidade. Para a prefeitura, deve ser ‘pobre’. E f…-se. Estourou um cano, imagino que aquele que carrega material de banheiros, porque o fedor era insuportável. Pobre de quem rezava na igreja. Como o material já estava secando, isso me levou a crer que a coisa não deveria ter ocorrido de madrugada. Dei uma de repórter e me informaram, várias pessoas, que aquilo estava assim há dias. E a cidade limpa, como fica? Vale só para outdoors, na cabeça desse prefeito e de seus colaboradores, que tiveram a excelente ideia? Pessoalmente, preferia ver a bunda da Gisele no oudoor e a cidade limpa no asfalto. Onde andava essa gente, enquanto isso, perfumando o narizinho? Acho muito natural que todo mundo persiga a merda na administração pública para denunciar. Ali, não era metáfora. A merda era real. Como diria Jean-Luc, o Godard – ‘Salve-se quem puder (a vida)’.