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Cultura » A vida é dança

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Luiz Carlos Merten

11 Outubro 2006 | 15h54

Fui visitar ontem o set do novo filme de Laís Bodanzky. A reportagem sai amanhã no Caderno 2. Foi uma emoção e tanto. Havia lido o roteiro de União Fraterna quando integrei a comissão da Petrobrás para apoio à produção. Gostei demais, mas também somou o fato de ser um filme da Laís e do Luiz Bolognesi, que admiro tanto pelo Bicho de Sete Cabeças. O título União Fraterna, que é o mesmo nome do salão de danças da Rua Guaicurus, foi considerado cifrado e a produção foi rebatizada como Chega de Saudade. Cheguei no set e encontrei aquele monte de casais dançando. Velhos, gordos e magros, de todas as cores e raças, de todos os extratos sociais, todos unidos pela dança. De cara, me chamou a atenção uma mulher gorda e não muito bonita, mas que dançava com tal leveza, tal elegância, que comentei com o Luiz. Olha como ela fica linda! Ele me disse – o filme é sobre isso. Luiz também disse que o roteiro submetido à comissão da Petrobrás sofreu alterações. Aquele era o primeiro ou segundo, o que está sendo filmado é o sexto. Personagens foram suprimidos e outros aglutinados. O filme ficou mais denso, mais profundo. Laís depois me reforçou a idéia. Chega de Saudade está construindo para ela outra noção de tempo. Os personagens são velhos mas não caquéticos. A dança lhes dá energia, entusiasmo. Laís diz que perdeu o medo de ficar velha. Se for assim, que venha logo a velhice. Quando cheguei a música era Como Uma Onda, do Lulu Santos, só instrumental. Mais metafórico, impossível. A vida vindo em ondas/como o mar… Reencontrei Paulinho Vilhena, com o visual bem distinto do punk que conheci no set de filmagem de O Magnata. Faz o DJ do salão de danças. É outro que está feliz da vida. O elenco tem também Stepan Nercessian, Cássia Kiss, Tônia Carrero, Maria Flor, tão maravilhosa em Proibido Proibir, do Jorge Durán. E tem os figurantes que Laís e Luiz estão transformando em atores. Edna Tartarini ganhou um papel importante e, aos 60 anos, está iniciando uma carreira que nunca imaginou. Valter Luiz de Andrade, o Valtão, negro principesco que dança como só o Fred Astaire (e talvez nem ele), virou o Diamante Negro do salão. A súmula do entusiasmo da equipe estava representada no Walter Carvalho, com a câmera atada ao corpo e que dançava com ela no meio do salão, captando passos, olhares, gestos, o rodopio dos casais. Acho o Walter um grande cara. Ele já fotografou para Walter Salles, Ruy Guerra, Júlio Bressane, mas se você pergunta como é fotografar um filme da Laís, ainda tão jovem… Não tem comparação, ele diz. Cada diretor é um diretor, cada filme é um filme e o Walter começa sempre do zero. No início, Laís e ele apanharam. Nunca haviam trabalhado juntos, não havia storyboard, Descobriram tudo juntos – o método de trabalho, o próprio filme. Tenho medo de criar falsa expectativa, de exagerar no entusiasmo. Um pouco de decoro não faz mal a um repórter. Mas confesso que vou ficar feliz da vida se reencontrar na tela o que vi ontem no União Fraterna.