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Cultura » A vida e a obra de Otto Preminger

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Luiz Carlos Merten

18 Abril 2008 | 14h12

Preminger – já contei para vocês que amo de paixão este austríaco que virou (grande) diretor em Hollywood, lutando contra a censura na indústria e provando que filmes podiam ser adultos (e sérios…) sem deixar de ser divertidos, isto nos anos 40, 50 e 60. A cada um seu preminger. Sei que muitos adoram seus filmes noir e, acima de todos, ‘Laura’. Há quem prefira os musicais, ‘Carmem Jones’ e ‘Porgy e Bess’. Eu gosto de todos e ainda teria ‘Bunny Lake Desapareceu’ na minha cabeceira, se filmes, como livros, pudessem ser de cabeceira, mas preciso confessar – aliás, nem preciso, porque já o disse muitas vezes – que sou louco pelo bloco de quatro filmes que Preminger fez no começo dos anos 60. É o corpo mais ‘político’ de seu cinema. ‘Exodus’, ‘Tempestade sobre Washington’, ‘O Cardeal’ e ‘A Primeira Vitória’. Quatro filmes que tratam do embate entre o homem e a instituição e utilizam indivíduos para falar de grupos. Quatro filmes nos quais Preminger, utilizando a tela larga – a Panavision -, atinge a perfeição da sua mise-en-scène, baseada no plano-seqüência e, quando cortava, na utilização do plano médio. Sempre sofri com o que a mim parecia inexplicável – a rápida decadência da fase final de Preminger, a decepção provocada por seus últimos filmes, embora tenha escrito na antiga ‘Folha da Manhã’, em Porto Alegre, uma crítica de ‘Rosebud’, usando o título, que remete a ‘Cidadão Kane’, para investigar as pistas falsas (e o discurso ‘semiológico’) do filme sobre um grupo de herdeiras seqüestradas por terroristas. Lembro-me de que o Professor Ruy Carlos Ostermann, depois de ler meu texto sobre ‘Rosebud’, foi na veia – ‘Deliraste, hein, guri?’ (e não sei se ele perguntava ou zombava). Todo este preâmbulo é para dizer que comprei em Los Angeles, na Barnes & Noble, o livro ‘The World and Its Double – The Life and Work of Otto Preminger’, de Chris Fujivwara. Descobri, na orelha, que ele já é autor de um livro sobre Jacques Tourneur, ‘The Cinema of Nightfall’, tendo uma queda pelo filme noir. Li de um sopetão, no avião. Fujiwara ilumina o homem e a obra, faz análises de fundo e não poupa as histórias de que Preminger era um autoritário no limite do sádico. Conto uma história. Preminger contratou Tom Tryon como protagonista de ‘O Cardeal’. Os pais foram visitá-lo no set. Preminger vivia gritando com Tryon – era assim com todo mundo -, mas naquele dia se excedeu e o ator, humilhado, jurou que ia abandonar a produção. Preminger foi cruel – ‘Não vai não, porque tu és um fraco.’ Muitos anos depois, numa entrevista ele revelou que havia escolhido Tom Tryon porque era frágil – um duplo de bêbado e homossexual – e ele precisava justamente de um ator com este perfil. Fujiwara conta que quando se reencontraram, anos mais tarde – haviam feito também ‘A Primeira Vitória’ -, e Tryon lhe disse que desistira do cinema por causa dele, Preminger não se deu por vencido e disse que então ele tinha de lhe agradecer, porque havia iniciado outra carreira, como escritor, na qual era muito mais bem sucedido do que como ator. Santo Deus! Mas Preminger, mesmo tendo sido este monstro, foi grande. ‘Exodus’ é um dos filmes do meu coração e o velho revolucionário Akiva, interpretado por David Oppatoshu, é um daqueles personagens que carrego sempre comigo (como Rocco). Fujiwara analisa os últimos filmes e resgata para mim o que é novidade. Diz que tem gente que acha ‘Amigos São para Estas Coisas’ e ‘O Fator Humano’ os melhores filmes do autor, aqueles a partir dos quais Preminger precisa ser repensado. Suas análises destes filmes são muito interessantes e, mesmo quando aponta o que é (ou parece) falho, ele extrapola e mostra a importância de um e outro para o conjunto da obra. Que coisa! Fujiwara também levanta a suspeita, impossível de confirmar – já que não houve autópsia -, de que Preminger podia estar sofrendo de Alzheimer quando morreu (em 1986). Grande livro! Haviam dois sobre Preminger na livraria e nem sei porque optei por este. Acho que fiz a escolha certa.