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Luiz Carlos Merten

28 Setembro 2007 | 12h27

RIO – Fiz ontem a mediação no debate da equipe de A Via Láctea com o público do Festival do Rio. Foram quase todos – a diretora Lina Chamie, a fotógrafa Kátia, o roteirista Aleksei, o montador André Finotti, os atores Marco Ricca e Alice Braga. Gosto muito do filme, gosto do cinema dela, em geral, porque também me encanta o anterior Tônica Dominante. Lina é muito ligada em poesia e música, mas ela não goste que a gente fique falando sobre isso. Diz que são ferramentas para que conte suas histórias e a de A Via Láctea, sobre amor e morte nas ruas de São Paulo, é muito bonita, embora não se ofereça facilmente ao espectador. Fui eu que dei a notícia a Lina. A Via Láctea passou na Semana da Crítica em Cannes, em maio. Em junho, Cahiers du Cinéma fez sua avaliação do festival e destacou a rexcelência da programação da Semana, começando justamente pelo filme da Lina. Os estrangeiros não esperam esse tipo de produto erudito, sofisticado, numa cinematografia como a brasileira, mas temos a Lina, o Bressane. Sei que A Via Láctea é o tal biscoito fino de que falava o Mário de Andrade, mas acho que, na diversidade que caracteriza o cinema brasileiro, exista espaço para esses diretores de gosto tão apurado. Uma das grandes cenas do cinema brasileiro da Retomada, para mim, é aquela em que Fernando Alves Pinto caminha pela Rua Xavier de Toledo, deserta, descendo em direção ao Teatro Municipal, banhado na luz do amanhecer (e por isso a rua está deserta). A imagem, a música – a cena não tem função narrativa, não faz avançar a história. Pode significar nada, dependendo do olhar. Para mim é tudo. A Via Láctea tem essa mesma riqwueza, essa mesma complexidade. Lina fez o filme na base da guerrilha, com R$ 400 mil. Ela sdeduziu Marco Ricca, Alice. Como se trata de um filme de imersão, que esculpe o tempo, perguntei se Tarkovski havia sido uma referência. Lina conhece Tarkovski, gosta, mas suas referências foram outras. Godard, pela liberdade, e Kubrick, pelo cerebralismo da construção. Os filmes dela são pensados nos mínimos detalhes. Deve ser por isso que Lina recorra tanto à música, e à poesia -para dar alma (e emoção) ao seu mecanismo de ourivesaria.