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Cultura » A verdadeira estratégia da aranha

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Luiz Carlos Merten

29 Novembro 2007 | 11h37

E ontem não tive tempo de postar nada sobre o belo ‘A Estratégia da Aranha’, exibido à noite, no Cine Bombril, no evento Venezia Cinema Italiano 3, como homenagem a Bernardo Bertolucci, que recebeu um Leão de Ouro especial por sua carreira no recente Festival de Veneza, em setembro. Aliás, estou sem sorte com ‘A Estratégia’. Havia escrito um texto do qual estava gostando (e já ia finalizar), quando tocou o telefone, eu atendi e bati em não sei que tecla, deletando tudo. Lá vou eu começar de tudo. O filme pertence a uma fase do Bertolucci de que gosto muito, a dos filmes políticos, que começa com ‘Antes da Revolução’, em meados dos anos 60, e prossegue com ‘A Estratégia’ e ‘O Conformista’, antes de chegar a ‘Último Tango em Paris’. Segue-se aquele Bertolucci orientalista de que não gosto muito, apesar da suntuosidade cênica de ‘O Último Imperador’ e do deslumbramento visual produzido pela fotografia de Vittorio Storaro, captando o deaserto, em ‘Sob o Céu do Saara’. Bertolucci renasce com ‘Beleza Roubada’, de que gosto mais do que de ‘Assédio’, e ‘Os Sonhadores’, seu tributo a Maio de 68. Aliás, sobre ‘Beleza Roubada’ tenho uma história ótima. Havia visto o filme em Cannes e, não sei por quê, tive de ditar uma matéria para o jornal. Estava muito emocionado porque olhava para Liv Tyler na tela e era como se visse minha filha Lúcia – e a personagem se chama Lucy –, realizando o rito de passagem. Saí nas nuvens, convencido de que havia assistido ao nascimento de uma estrela e tentei transmitir isso em meu texto. Comecei a ditar o nome – L de luva, I de Ivo, V de Vaca. Quem me ouvia, do outro lado da linha, entendeu F de faca e saiu ‘Nasce uma estrela, Lif Tyler’. Incrível! De volta à ‘Estratégia da Aranha’, o filme é uma livre adaptação de Jorge Luis Borges, do ‘Tema do Traidor e do Herói’. Conta a história de um filho em busca do pai e, neste sentido, antecipa ‘La Luna’, que Bertolucci realizou dez anos mais tarde, só que aqui a época é o fascismo. O filho chega à cidade em que nasceu – Tara (e o nome evoca a mítica fazenda de Scarlett O’Hara em ‘… E o vento Levou’) – disposto a investigar a morte do pai, depois que foi descoberto seu envolvimento num complô para matar Mussolini. O filme começa na estação, com a chegada do trem, que Bertolucci filma com a câmara parada, evocando o primitivo trem do cinematógrafo dos irmãos Lumière. A partir daí, Tara vira uma espécie de teatro de Athos Magnani (o morto), com múltiplas referências. A estátua do pai é pintada de forma a evocar as estátuas de ‘O Desprezo’, de Godard, um dos primeiros mestres de Bertolucci. Existem citações a Shakespeare, por meio de ‘Júlio César’, o assassinato do grande homem, e a ‘Macbeth’, a ambição desmedida do poder. E o crime ocorre no teatro, quando Athos Magnani assiste a uma representaçãso da ópera ‘Il Trovatore’, de Verdi – uma dupla referência a outro mestre de Bertolucci, o operístico Visconti, de quem Bertolucci também utiliza a atriz (Alida Valli) de ‘Sedução da Carne’ (senso), que, não por acaso, é uma história de heroísmo e traição. O próprio Athos, traidor do fascismo, vira herói, mas novas descobertas ainda tornam mais tênue a linha que separa o traidor do herói, tema de Borges. Politicamente rico, complexo, ‘A Estratégia da Aranha’ metaforiza o próprio título por meio de uma construção que apanha o espectador como uma teia. O filme se inicia lento, parado, mas de repente estamos hipnotizados pela música, pelo chiaroscuro da fotografia de Storaro. A ação é esquemática, os gestos são mecânicos e as falas, muito simples. Mas tudo isso, essa teia, só se revela por completo no fim, que clarifica o título. O personagem montou uma ficção para revelar a violência do fascismo e o filme monta sua ficção para revelar a estratégia do personagem. Grande Bertolucci! Não sei se Borges viu (e aprovou) o filme. Mas que todo o escritor argentino está nele, lá isso está.