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Luiz Carlos Merten

11 Agosto 2010 | 16h46

GRAMADO – Os curadores José Carlos Avellar e Sergio Sanz não acreditam no formato campeonato de filmes. Para eles, partidários do cinema de autor, um festival deve ser o ponto de encontro para debater ideias, processos de realização, métodos de produção. Ontem, foram exibidos dois documentários, um sem palavras, o venezuelano ‘História de Un Dia’; o outro, verborrágico, ‘O Contestado – Restos Morais’, do Brasil. O segundo é de Sylvio Back, que nove entre dez colegas adoram odiar, não me perguntem por que, mas ficam o tempo todo fazendo piadas cretinas, infantis. Confesso que não tenho paciência. De maneira geral, já é uma gente que não me merece respeito. O novo filme do Sylvio retoma como documentário o episódio do Contestado, que ele tratou como ficção em ‘A Guerra dos Pelados’, há 40 anos. Poucos diretores brasileiros têm essa coragem, ou honestidade, de se debruçar de novo sobre alguma que, para eles, merece ser revista. Sylvio Back foi à Academia ouvir especialistas sobre A Guerra do Contestado. Ele ouve historiadores, descendentes de antigos ‘pelados’, como eram chamados os donos das terras expropriadas naquele conflito fundiário no Sul do Brasil, em Santa Cataerina e no Paraná, entre 1912 e 16. O filme é muito falado, mas o que desconcerta muita gente é que Sylvio filma espíritas que incorporam as vítimas do Contestado, dando voz a seu sofrimento. Achei o recurso muito interessante, original mesmo – embora o próprio diretor já o tivesse usado em ‘Autorretrato de Bakun’, nos anos 1980, sobre o artista paranaense.. Acho que, conscientemente ou não, os médiuns de Sylvio estão reconstituindo o transe, a visão delirante de Glauber Rocha, ao dar voz aos destituídos da grande História. Tem gente que admite não saber como reagir. Os médiuns são verdadeiros? O diretor jura que sim e eu, achando o recurso fascionante, me pergunto se faria realmente muita diferença se os transes mediúnicos fossem encenados. ‘O Contestado’ é um filme provocador, e isso é que importa. O festival atinge hoje dois terços de sua duração. Seis dias de um total de nove, incluindo a premiação, no sábado. Gostei muito, ontem à tarde, do filme de Fabiano de Souza, ‘A Última Estrada da Praia’. Livremente adaptado de ‘O Louco do Cati’, de Dyonélio Machado, nasceu como projeto de TV, da RBS. Fabiano fez um curta de meia hora, mas ganhou autorização da produtora para fazer outra versão, longa, de 90 minutos. Foi a que passou aqui, integrando a mostra Panorama, que também é competitiva (avaliada pelo júri de estudantes). Ainda não entendi porque ‘A Ultima Estrada’ não está na competição. Avellar me disse que já tinha passado em Porto – a garotada da revista ‘Teorema’, da qual Fabiano faz parte, me diz que não. O filme passou na TV, mas não este – a versão curta. ‘A Última Eestrada’ teria feito pela figura concorrendo aos Kikitos. Encontrei o pai do Fabiano, Enéas de Souza, grande crítico. Não me lembrava quem, Jefferson Barros ou ele, havia escrito um belo texto sobre o livro, que virou cult nos anos 1960. O Enéas não foi. Deve ter sido Jefferson. O livro é sobre esse louquinho que cai na estrada, carregado ou apadrinhado por um sujeito que é preso pela ditadura. Ambos vão parar no Rio, de onde o amigo despacha o louco do Cati para Porto. Ele não fala, exceto essa meia sentença – ‘É cati!’ É cativeiro. O livro metaforiza a repressão do getulismo. O filme trata menos de política que de um impasse existencial. São quatro personagens na estrada, um casal, o louco e o que o recolhe (e forma um triângulo, de sexo inclusive, com o casal). De alguma forma, acho que ‘A Última Estrada da Praia’ dialoga com ‘Estrada para Ythaca’, dos irmãos Pretti e de Pedro Diógenes e Guto Parente, que venceu o Festival de Tiradentes, do qual fui jurado, em janeiro. O ator que faz o louco é maravilhoso. Trabalha com um mínimo de elementos, nada é conclusivo sobre o personagem, e ele expressa sua angústia, o turbilhão interior. Bom demais. Se dependesse de mim, seria muito interessante reunir o filme gaúcho e o cearense para debater estéticas, métodos de produção. A riqueza do cinema brasileiro atual passa por esses dois filmes que muito me encantaram e estimularam. Daqui a pouco, começa a sessão de curtas. Palácio dos Festivais, lá vou eu.