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Luiz Carlos Merten

09 Dezembro 2008 | 15h23

Celdani entrou aqui no blog para agradecer as indicações do Mauro, sobre DVDs à venda na 2001 da Av. Paulista, e aproveitou para fornecer as suas, preferencialmente sobre westerns, que ele garimpou na própria internet, no site DVD World (sobre o qual eu nunca tinha ouvido falar, é verdade). Celdani conta que encontrou – baratinho – um bangue-bangue pelo qual é louco, e eu acrescento que também sou, ‘A Última Carroça’ (The Last Wagon), de Delmer Daves, de 1956. Tenho de admitir que tenho um fraco pelo diretor. Deve ser meu lado romântico, mas sempre achei muito bonita a história sobre como o o jovem Delmer, nascido em São Francisco, pouco antes do célebre terremoto que destruiu a cidade, começou a estudar direito, mas aí, como o garoto de ‘Na Natureza Selvagem’, ele largou tudo e tomou o rumo, não do Alasca, mas do deserto, iniciando uma solitária jornada pelo Arizona que o levou a viver um período entre os índios Hopi e Navajos. De volta à civilização, Daves concluiu os estudos, emoldurou o diploma e decidiu que queria fazer cinema. Virou roteirista e, depois, diretor. Seu primeiro longa fez parte do chamado esforço de guerra, ‘Rumo a Tóquio’, mas ‘Dark Passage’, de 1947, com Humphrey Bogart, lançado no Brasil como ‘Prisioneiro do Passado’ – é uma adaptação de David Goodis -, dispõe de excelente reputação. Nos 50, exatamente em 1950, com ‘Flechas de Fogo’, Delmer Daves inicia sua saga no western. Muito provavelmente como conseqüência de sua estadia entre os índios, ‘Broken Arrow’ – título original – destaca-se na produção da época por duas características. É um dos primeiros filmes, senão o primeiro, a humanizar o pele-vermelho e a expor, mesmo de maneira que hoje parece ingênua, as reivindicações dos primitivos habitantes da América. Talvez por ter vivido entre eles, Daves foi exato nos detalhes e adquiriu a fama de ‘documentarista do western’, que o acompanhou durante toda a década. Gosto particularmente de ‘A Última Carroça’, no qual Richard Widmark é fora-da-lei caçado por xerife que se integra a caravana de pioneiros. Widmark mata o xerife, mas assume a defesa da caravana, quando é atacada pelos índios. Widmark, não tenho bem certeza, chama-se Todd e matou para defender a mulher índia e os filhos mestiços. Além deste filme com Widmark e de ‘Flechas de Fogo’ com James Stewart, Delmer Daves fez westerns com Alan Ladd (‘Os Homens das Terras Bravas’) e Gary Cooper (‘A Árvore dos Enforcados’), mas deve sua aura de diretor de filmes do gênero principalmente aos que fez com Glenn Ford (‘Ao Despertar da Paixão’, ‘Como Nasce Um Bravo’ e ‘Galante e Sanguinário’, que não é outro senão a versão original de ‘3:10 to Yuma’, há pouco refeito com Russell Crowe e Christian Bale, não Slater – onde eu estacva com a cabeça quando confundi os dois?). Embora sua série com Glenn Ford não tenha nem de longe o reconhecimnento das séries de Budd Boetticher com Randolph Scott e de Anthony Mann com Jimmy Stewart, tenho um carinho muito grande pela obra ‘westerniana’ do autor. Daves deu, nos anos 60, uma guinada para o melodrama que minou seu prestígio junto à crítica. Foi ele quem impôs Troy Donahue como jovem galã na Warner. Como confissão final, sou da geração que viu ‘Candelabro Italiano’ no antigo cine Cacique, em Porto Alegre – à sombra daqueles dois monumentais painéis de Glauco Rodrigues que dominavam a sala. ‘Al Di Là’ faz parte, como se diz, da minha ‘memorabilia’.