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Cultura » A trilogia de Antonioni

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Luiz Carlos Merten

09 Julho 2012 | 14h48

Na entrevista que fiz com Walter Salles, nas semana passada, houve um momento em que estávamos no L’Hotel e eu lembrei que, naquele hotel, havia entrevistado Michelangelo Antonioni, Wim Wenders e Claude Lanzmann. Walter observou que ‘Shoah’ é certamente um monumento de cinema, mas que Antonioni e Wenders, de uma maneira muito especial, foram decisivos para que despertasse nele o desejo de ser diretor de cinema. Lembro-me de uma homenagem que o Festival de Tessalônica, na Grécia, prestou ao cinema brasileiro. Fui convidado para fazer a cobertura para o jornal e participar de uma mesa. Foram encontros bem interessantes e houve um em que Wenders e Waltinho falaram de cinema de estrada. Como se roteiriza e realiza um filme que é feito ‘on the road’? Como se incorpora o imprevisto? Waltinho diz que Wenders foi referência para ele, mas Wenders, naquela mesa, se referia ao colega brasileiro como ‘igual’ – e um grande diretor. Por que estou lembrando isso? Por causa de Antonioni. Lembro-me de que fiquei na cola dele, quando veio a São Paulo. A entrevista foi feita por meio da mulher, que traduzia o que ele dizia com a língua toda enrolada, após o acidente vascular cerebral que o deixou paralítico e sem fala, reduzido ao silêrncio, em 1985. Dez anos mais tarde, apesar das difíceis condições físicas, ele fez aquele filme, ‘Além das Nuvens’, do qual Wenders foi o diretor stand-by, por exigência das seguradoras. Antonioni quis ir ao cinema em São Paulo. Estava estreando ‘Lobo’, de Mike Nichols, com Jack Nicholson, a quem dirigira em ‘O Passageiro, Profissão: Repórter’. Nicholson seria chamado para lhe entregar, também em 1995, o Oscar honorário que recebeu da Academia de Hollywood. Fez aquele discurso de apresentação, dizendo que era irônico que o autor que havia incorporado o silêncio e feito dele um importante elemento dramático agora não pudesse falar. Acompanhei Antonioni quando foi ver ‘Lobo’ (no antigo Gazeta). Sentei-me a uma certa distância e fiquei com um olho na tela e outro nele. Era evidente seu prazer diante das reações de Nicholson, num papel sob medida, o cara pacato, em crise profissional e afetiva e para quem a transformação em lobisomem significava uma injeção de potência (e o herói se aproveitava disso, descontando na libido acesa da personagem de Michelle Pfeiffer). Antonioni, que foi um grande criador de personagens femininas, curtia o jogo de sedução do filme. Dada a sua paralisia, posso psicologizar que ele, que foi um sedutor, talvez estivesse curtindo o fantasioso excesso de potência de seu ator fetiche. Cheguei em casa na última sexta-feira e me esperava a nova caixa da Versátil. A empresa está lançando a trilogia da solidão e da incomunicabilidade. ‘A Aventura’, ‘A Noite’ e ‘O Eclipse’ já haviam sido lançados isoladamente, e agora estão juntos, num único (re)lançamento. Antonioni fez esses três filmes entre 1960 e 62, radicalizando a tendência à introspecção e o fazendo por meio de narrativas abertas, que pulverizam a história e exibem, o que não deixa de ser paradoxal, grande rigor técnico. Qual é a história de ‘A Aventura’? No começo do filme, a personagem de Lea Massari desaparece durante um cruzeiro e sua amiga Monica Vitti a procura com o amante da desaparecida, Gabriele Ferzetti, de quem se aproxima e com tem um affair. Antonioni disseca os sentimentos e não responde à pergunta – por que ela sumiu? A resposta só virá no desfecho de ‘O Eclipse’, na prodigiosa sequência que expressa o eclipse do gênero humano, quando as pessoas somem de cena e ele filma – vazios – os espaços em que se desenrolou a ligação de Monica Vitti com Alain Delon. Entre ambos os filmes, ‘A Noite’ se ocupa das deambulações de Lídia, Jeanne Moreau. Ela visita com o marido, Marcello Mastroianni. o amigo moribundo no hospital e depois caminhas sozinha por Milão. À noite vai à festa na mansão de Valentina, Monica Vitti, e de novo percorre os ambientes sem se fixar em nada nem ninguém. De manhã, exaustos, o marido e ela sentam-se no jardim e Lídia lê aquela carta de amor que ele nem se lembra de haver escrito, anos atrás. Os três filmes vão se completando e esclarecendo. A solidão, a incomunicabilidade, o vazio existencial da elite situada no topo da pirâmide social. A trilogia pertence a uma grande fase do cinema italiano. Entre 1960 e 62, Federico Fellini estava fazendo ‘A Doce Vida’ e ‘Oito e Meio’ e Luchino Visconti, depois de ‘Rocco e Seus Irmãos’ e do episódio de ‘Boccaccio 70’, O Trabalho, finalizava ‘O Leopardo’, que venceria a Palma em Cannes, 1963. Grandes mudanças – estéticas, éticas, comportamentais – estavam ocorrendo. Havia também a nouvelle vague, o Cinema Novo, que eclodia. A trilogia de Antonioni era e ainda é um marco. Os filmes eram modernos e continuam sendo. Não envelheceram. E Monica Vitti, que depois liberou sua veia de comediante, exprime a tensão com economia. Gestos precisos, poucas palavras. Aqueles três filmes formam uma Bíblia do cinema.