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Cultura » ‘A Tragédia de Romeu e Julieta’

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Luiz Carlos Merten

19 Julho 2009 | 13h22

Estava em Cannes, em maio. Cannes Classics exibia a versão restaurada de ‘Senso’, de Luchino Visconti, lançado no Brasil como ‘Sedução da Carne’. Nem pensei duas vezes no filme da competição que estaria perdendo. Depois, recupero, foi isso o que pensei, e lá me fui atrás do meu querido Visconti. Lá estavam o diretor artístico do festival, Thierry Frémaux, e o responsável pelo programa de restaurações da Cineteca de Bologna. Conversaram sobre a restauração, e o clássico de Visconti. O italiano lembrou o absurdo. Em 1954, Visconti concorria ao Leão de Ouro, mas o júri de Veneza ficou passado com a polêmica provocada pelo filme, que reconstitui a derrota italiana na batalha de Custoza, contra os austríacos, durante o Risorgimento. Visconti nada ganhou – Fellini recebeu um prêmio especial do júri por ‘La Strada’ e o grande prêmio, o Leão de São Marcos, foi para um filme hoje esquecido pelos historiadores de cinema. Por que estou me lembrando disso, agora? Porque fui ver ontem ‘Romeu e Julieta’, na montagem de Marcelo Lazzaratto com Raoni Carneiro e Maria Laura Nogueira. O filme esquecido, que roubou o Leão de Visconti, foi o ‘Romeu e Julieta’ de Renato Castellani, com Laurence Harvey e Susan Shentall. Anos mais tarde, Visconti foi de novo preterido em Veneza e o júri deixou de premiar ‘Rocco e Seus Irmãos’ para outorgar o Leão de Ouro a André Cayatte, Ave Maria!, por ‘A Passagem do Reno’. Não creio que o ‘Romeu e Julieta’ de Castellani fosse merecedor de desprezo. Interpretado por um casal de atores de 17 e 15 anos, tenho a vaga lembrança de um filme muito bonito. Castellani, na época, restaurou a juventude da peça pelo simples fato de fazer com que atores jovens a interpretassem. A versão de George Cukor, nos anos 30, por mais méritos que tivesse, foi formatada para Norma Shearer, que tinha idade para ser mãe – avó? – da heroína. Seu Romeu era Leslie Howard, um ator que nunca foi jovem. De nada adiantava o brilho da mise-en-scène. O filme de Cukor era engessado pelos atores. Surgiram, mais tarde, todas as demais versões – a dançada, de Paul Czinner, com Rudolf Nureyev e Margot Fonteyn, as de Franco Zeffirelli e Baz Luhrmann. Sempre achei legal a versão de Zeffirelli, com Leonard Whiting e Olivia Hussey, mais aquela suntuosidade cênica (Oscars de fotografia e figurinos, mais a trilha de Nino Rota, com a canção ‘A Time for Us’, que virou um hit na épóca, o fim dos anos 60). Quase desanimei ao descobrir que a montagem, ontem, teria três horas, mas algo se produziu quando o narrador pediu que emprestasse meus ouvidos pacientes, com os do restante do público, prometendo se esforçar para não deixar faltar nenhum detalhe. Talvez exagere, mas não seria eu se não exagerasse, mas nunca vi, no cinema, Romeu e Julieta como Raoni e Maria Laura. Acho que, a rigor, poderia cobrar algumas coisas – ele não tem dicção, o elenco todo grita demais, mas ontem, a peça, parcialmente encenada ao ar livre (o palco não é italiano), enfrentou o desafio da chuva. Soube depois que Raoni Carneiro saiu de uma pneumonia e agora me preocupo – aquele guri, todo molhado, depois de rolar pelo chão nas cenas de lutas, está bem? Nunca vi um Romeu como ele, nem uma Julieta. Com os defeitos ‘técnicos’ que suas atuações pudessem ter, eles diziam o texto de maneira tão intensa, e sincera, que as três horas passaram voando e eu acompanhei emocionado a evolução da tragédia noturna, antecipando os diálogos e até cantando (baixinho) com eles. Vi a peça com meu amigo Dib Carneiro, jurado do prêmio Coca-Cola – aliás, o prêmio não é Coca-Cola, é Femsa, como a distribuidora do refrigerante no Brasil -, e ele até me perguntei de onde conhecia a letra? Não conhecia, aprendi na hora, de tanto que viajei e me projetei na velha história. Saímos dali, apanhamos o filho do Dib, Heitor, e fomos jantar no Filippa, tudo em Pinheiros. Que coincidência. Lá estava o elenco do ‘Vestido de Noiva’, de Gabriel Villela, que está encerrando sua temporada em São Paulo – mais duas semanas – e vai excursionar pelo interior e pelo Brasil, indo a Porto Alegre, Rio etc. Ouvi os maiores elogios ao Raoni e a Maria Laura. Leandra Leal, que faz Alaíde na peça de Nelson Rodrigues, tem grande carinho por eles. Vera Zimmermann encheu a bola do Raoni. Não pude entrar em detalhes, mas o projeto de ‘Romeu e Julieta’ teve início em 1999, quando Lazzaratto montou a peça com Raoni e Maria Laura no Teatro Célia Helena. Exatamente dez anos depois, o trio transforma em labareda a pequena chama de uma década atrás. No programa, os atores lembram que estão agora um pouco mais velhos que os personagens, mas ainda em tempo de reviver o conto de amor, intolerância, conflito de gerações e ousadia dos jovens. ‘Ó fortuna, fortuna, fortuna…’ Raoni e Maria Laura fizeram TV no intervalo (a novela ‘Ciranda de Pedra’, se não me engano). Não há que ser preconceituoso. Quando a coisa é boa, a alma não pode ser pequena.