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A teoria do terceiro filme, por John Woo

Luiz Carlos Merten

09 Maio 2009 | 10h46

PARIS – Quem me encontrasse ontem por volta das 8 da noite na esquina do Boulevard Saint Denis com Strassbourg ia achar que aquele velhinho era maluco. Saí do cinema em transe depois de ver ‘Les Trois Royaumes’, que é como ‘Red Cliff’, La Falaise Rouge, se chama aqui na França. Referi-me ontem, erradamente, ao novo filme chinês de John Woo como sendo de artes marciais. Não é – nem de artes marciais nem de sabre. É um belíssimo filme de guerra. John Woo baseou-se num dos grandes épicos da literatura chinesa, ‘O Romance dos Três Reinos’, de Luo Guanzhong, muito apreciado também no Japão e na Coréia. Comprei o número de abril da revista ‘Positif’, cuja capa é uma imagem de Takeshi Kaneshiro no filme. Há uma longa entrevista de John Woo explicando porque queria fazer este projeto grandioso e como fragmentos dessa história já aparecem em obras que fez antes. Aos 11 anos, seu herói favorito era Zhao Yun, o espadachim que salva o bebê e é 100% leal aos amigos e aos superiores. Zhao Yun inspirou o Chow Yun-fat que salva os bebês na cena do hospital em qual filme mesmo de John Woo? Esqueço o título, mas é curioso que Zhao seja agora um herói secundário de ‘Os Três Reinos’ e os personagens centrais sejam o general interpretado por Tony Leung e o estrategista Takeshi Kaneshiro, que lê os sinais da natureza e antecipa a mudança de vento que vai salvar o pequeno Exército de dois reinos da ofensiva do usurpador do terceiro reino. Essa história tem algo de Homero. Como na Guerra de Tróia, o usurpador, o primeiro ministro Cao Cao (Zhang Fengyi), e o general Zhou Yu (Tony Leung), travam uma guerra pessoal pelo amor de uma mulher e, como em ‘300’, sobre a batalha das Termópilas, aqui um exército de 2 mil homens enfrenta outro de 800 mil. Achei o filme uma coisa de louco. John woo comandou uma equipe gigantesca. Corey Yuen dirigiu as cenas de combates físicos; Patrick Leung esteve ao lado do diretor nas batalhas navais (e no incêndio da frota de Cao Cao), Zhang Jinzhan comandou as cenas de multidão. A produção contou com milhares de extras e, por trás das câmeras, com centenas de jovens que, em todo tipo de função, transformaram a filmagem épica de ‘Red Cliff’ numa escola de cinema à americana, espetacular. O filme foi lançado em duas partes na China, a primeira, no ano passado; a segunda, no começo desse ano. O duo principal é maravilhoso. Leung e Kaneshiro falam por meio da música e o primeiro é um personagem confuciano para o qual a cerimônia do chá é tão decisiva quanto o combate (e, por isso mesmo, a mulher, essa Helena chinesa, vai ajudar a derrotar Cao Cao numa cena maravilhosa em que se infiltra no acampamento inimigo e prepara o chá para o homem que a deseja acima de tudo). É significativo que o formato ‘americano’, o gigantismo da produção, sirva para embalar uma história tão chinesa, na qual os três reinos, no fundo, se refiram às três Chinas, a ex de Mao, a de Hong Kong e agora a dos Jogos Olímpicos. Ou então, considerando-se as nacionalidades de artistas e técnicos, podem ser a China, Taiwan e o Japão, já que se trata de uma superprodução pan-asiática. Concebido como um díptico, o projeto foi transformado num só filme de 2h30 para o Ocidente (a versão que vi ontem). Embora o post esteja enorme, não resisto a acrescentar alguma coisa sobre a teoria do terceiro filme que John Woo expõe em ‘Popsitif’. Ele conta que, quando começou, em Hong Kong, os filmes não tinham roteiros, só uma linha geral narrativa. Ele batalhou muito para valorizar o roteiro. O de ‘Red Cliff’ consumiu dois anos e teve oito roteiristas, mas John Woo diz que tem preguiça de ‘passar o roteiro pela câmera’, como dizia Alfred Hitchcock. Ele reinventa outro filme no set, com os atores e técnicos, até para que todos se envolvam (e comprometam mais) no processo. Mas o de que ele gosta mesmo é da montagem, porque é nela que se constrói o filme (o ‘terceiro’ filme, segundo sua expressão). Para compor a versão de ‘exportação’, ele escreveu mais um roteiro, que também foi desconstruído na montagem. ‘Os Três Reinos’ tem duas cenas, dois efeitos, como nunca vi. John Woo parte de um enquadramento do premier Cao Cao, afasta a câmera abruptamente num efeito de zoom que reduz o personagem a proporções liliputianas e, sem corte, a zoom para trás vira um travelling vertiginoso à frente, voando sobre a esquadra do terceiro reino. O outro plano é um vôo de pomba sobre toda a frota reunida em frente à falésia vermelha. Nunca vi aquilo. Tem gente que não liga para isso (tenho pena por eles). Sinto necessidade de aventura, adoro essa descarga de adrenalina no cinema. Espero que ‘Os Três Reinos’ chegue aos cinemas brasileiros para que vocês também possam ver essas cenas de cortar o fôlego.