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Cultura » A tentação do irmão Araújo

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Luiz Carlos Merten

23 Outubro 2006 | 09h24

Fui ver ontem o filme de José Araújo As Tentações do Irmão Sebastião e confesso que… Nem sei o que confessar. Escrevi ontem aqui que estava louco para ver o filme, mas não possuía nenhuma informação sobre ele. Nem sabia do que se tratava. Logo na abertura, descobri que o irmão Sebastião tem ligação com o mártir cristão que virou santo católico – e originou um filme famoso de Derek Jarman. Bem antes que Mel Gibson fizesse A Paixão de Cristo falado em aramaico, Jarman havia feito Sebastiane, em 1976 (há 30 anos), falado em latim. Jarman era gay de carteirinha – morreu em 1993, aos 41 anos –, além de homem de grande cultura. Fez Caravaggio, Edward II e Wittgenstein. Seu Sebastião é uma evocação homossexual do martírio do santo, revelando um imaginário meio punk (Jarman fez também Magnicídio, que era justamente sobre o movimento punk em Londres). De volta às Tentações do Irmão Sebastião, mal sabia eu que elas são as da carne, que o diretor José Araújo filma para discutir, metafisicamente, questões ligadas à transcendência. Seu Sebastião é atormentado pelo desejo (hetero e homo), sendo tentado por uma representação do Diabo com raiz no candomblé. Ou seja. Sim – é um filme sobre a miscigenação cultural. José Araújo foi aquele diretor supervalorizado quando fez O Sertão das Memórias. Era uma fase em que o cinema brasileiro retomou o caminho do sertão, com Baile Perfumado, Outras Estórias (o melhor de todos, do Pedro Bial, que depois vendeu a alma ao Big Brother Brasil) e Crede-Mi (o pior, além de mais pretensioso de todos, da Bia Lessa, diretora que sempre adorou revirar pelo avesso os clássicos da literatura européia; no palco, ela fez isso melhor do que na tela; para Crede-Mi, baseou-se no Eleito, de Thomas Mann, transposto para as dunas do Ceará, onde também se passa Tentações). O filme de Araújo não é fácil nem se constrói por meio de um imaginário exclusivamente gay como o de Jarman (embora tenha algo a ver). O mais curioso é ver como o diretor enfrenta, e resolve, os problemas de fazer, no Brasil, um filme que tem reconstituição de época e projeção futurista. Meia dúzia de detritos num canto, sacos de plástico que voam e uma trilha de ‘guerra’ constróem sua visão do futuro circa 2030. É pobre, mas eficiente. Imagino que as pessoas que foram ver o filme ontem à noite no Unibanco devessem saber menos ainda que eu (que tinha, pelo menos, referências sobre o autor). Teve gente que não precisou de mais de dois minutos para ir embora. Nem esperaram para ver aonde aquilo ia dar (e deu). Foi uma debandada fenomenal. Saía gente pelo ladrão. No final, éramos metade do que havia no começo, na sala.