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A Taça Volpi de Burt Lancaster

Luiz Carlos Merten

09 Novembro 2010 | 09h07

Minha capacidade de fantasiar é inesgotável. Burt Lancaster recebeu a Taça Volpi de interpretação masculina por ‘O Homem de Alcatraz’, de John Frankenheimer, no Festival de Veneza de 1962. Emmanuelle Riva foi a melhor atriz, por ‘Thérèse Desqueyroux’, que Georges Franju adaptou do livro de François Maurois sobre a obsessão de uma mulher para envenenar o marido, e o Leão de Ouro foi dividido entre ’A Infância de Ivan’, de Andrei Tarkovski, e ‘Cronaca Familiare’ (Dois Destinos), de Valerio Zurlini. Eu não teria dividido o Leão, de jeito nenhum. Ele seria de Zurlini e ninguém ia tascar, muito menos aquele Tarkovski (mesmo sendo um dos filmes do diretor de que gosto). Mas onde fantasio é no seguinte. Teria sido no Lido, no Hotel des Bains, que Luchino Visconti sacramentou a opção por Burt Lancaster para ser o príncipe Salinas de ‘O Leopardo’. É puro delírio, sei. No segundo semestre de 1962, Visconti já devia estar finalizando seu filme, pois ‘O Leopardo’, daquele tamanho, já devia estar nos finalmentes para poder concorrer – e vencer – a Palma de Ouro em Cannes, no primeiro semestre do ano seguinte. É mais certo que a exposição de Lancaster na mídia italiana, justamente por sua associação com o grande Luchino, tenha contribuído para a premiação em Veneza. Deliro, sei, mas tudo isso me vem a propósito do lançamento de ‘O Homem de Alcatraz’ em DVD. Foi o segundo filme consecutivo do diretor com o astro, após ‘Juventude Selvagem’, e eles ainda trabalhariam mais vezes juntos – em ‘Sete Dias de Maio’, ‘O Trem’, quando Frankenheimer, já como homem de confiança de Lancaster, substituiu Arthur Penn , e ‘Os Para-Quedistas Estão Chegando’, o top da associação de ambos e, quem sabe, de toda a carreira do diretor, embora eu também goste muito de ‘O Homem de Kiev’ (The Fixer), com Alan Bates e Dirk Bogarde. Foram cinco filmes, no total, e durante todo este tempo Frankenheimer podia ser considerado um dos melhores diretores da geração que a TV cedeu a Hollywood nos anos 1950. Depois, e rapidamente, ele decaiu, sem que se saiba exatamente o porquê, mas Bertrand Tavernier sustenta que ‘A Hora da Brutalidade’, de 1986, marca um recomeço e eu até certo ponto acredito, porque, na época, gostei do Frankenheimer seguinte, ou pelo menos fiquei impactado com Dan Johnson como o policial que, em ‘Na Trilha dos Assassinos’, depois de correr atrás de um fugitivo, termina por vomitar no cara. Nunca vi nada parecido na minha vida, e menos ainda em Hollywood, mas Frankenheimer, no começo de sua carreira, já me produzira grande incômodo com o assassinato do cego em ‘Juventude Selvagem’ (The Young Savages). O cineasta, na sua primeira hora, era obcecado por temas sociais e passava um sentimento de urgência. ‘No Labirinto do Vício’ (The Young Stranger) é sobre um jovem levado à delinquência como reação ao pai, que o negligencia. ‘Juventude Selvagem’ é sobre promotor idealista que tenta fazer justiça no caso de um jovem que foi brutalmente atingido numa briga de rua, envolvendo gangues de negros e porto-riquenhos. E logo veio ‘O Homem de Alcatraz’, baseado numa história real sobre homem que vai preso e, durante seu longo confinamento na prisão com fama de inexpugnável – mas Clint Eastwood fugiu dela num thriller de Don Siegel, ‘Fuga de Alcatraz’ –, torna-se uma autoridade mundial em pássaros. Para contar essa história, Frankenheimer abriu mão da urgência e adotou um tom mais claustrofóbico, justamente para mostrar um homem engaiolado como os pássaros que viram a própria razão de ser de sua regeneração. O filme tem, até onde me lembro, uma bela fotografia em preto e branco e Lancaster ‘entrega’, como dizem os norte-americanos, uma interpretação cheia de sutileza, contida, de alguma forma oposta à do pregador religioso de ‘Entre Deus e o Pecado’, de Richard Brooks, que lhe valera o Oscar de 1961 (como melhor ator do ano anterior). Em 1962, Lancaster foi premiado em Veneza e ainda estavam por surgir novos e grandes filmes com Visconti, Brooks, Frankenheimer etc. Volto a Tavernier porque, certa vez, numa conversa por telefone, o assunto caiu em Frankenheimer e ele me fez uma observação que espero confirmar – toda essa conversa, já disse, é porque ‘O Homem de Alcatraz’ saiu em DVD (e você pode confirmar comigo). Tavernier observou que, apesar de sua fama de filme que recorre a efeitos para dinamizar o relato interiorizado, na verdade ‘O Homem de Alcatraz’ seria, ou é, de um classicismo impecável. Tavernier chega a dizer que é o melhor filme da primeira fase de Frankenheimer, incluído ‘The Manchurian Candidate’ (Sob o Domínio do Mal), a primeira versão.  Tenho minhas dúvidas – sempre gostei tanto de ‘Anjo Violento’ (All Fall Down), embora, pelo roteiro de William Inge e a presença de Warren Beatty, o filme, também de 1962 tenha um aspecto sub-Kazan. Foi feito no mesmo ano de ‘Clamor do Sexo’, com o qual tem, como se diz, ressonâncias.