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Cultura » ‘A Suprema Felicidade’

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Luiz Carlos Merten

17 Setembro 2010 | 10h00

Não tirei uma quinta-feira ‘sabática’ ontem, mas foi o acúmulo de produção que me impediu de vir ao blog. Cheguei cedíssimo à redação do ‘Estado’ e comecei a fazer as trocentas matérias que estão no ‘Caderno 2’ de hoje. As estreias de ‘Baaria’, de Giuseppe Tornatore; ‘O Pecado de Hadewijich’, de Bruno Dumont; e ‘Leo e Bia’, de Oswaldo Montenegro. Gosto dos três, é verdade que com gradações, e espero que vocês compartilhem esse amor. Mas ontem foi um dia especial. Assisti ao novo Arnaldo Jabor, que encerra um jejum de 17 anos do diretor, e achei ‘A Suprema Felicidade’ deslumbrante. É raro um diretor, após uma inatividade tão grande, voltar com esse pique, mas o filme, além de muitíssimo bem feito, é de uma beleza que me levou às lágrimas. Sempre concordei, com o próprio Jabor, que o melhor filme dele era ‘Tudo Bem’. Era – porque agora mudei. É possível fazer uma ponte bem nítida entre o grande filme dos anos 1970 e o atual, por meio da família e de sua ligação com o mundo. Anotem aí. O elenco do Jabor! Havia conversado com Dan Stulbach, quando participei do programa de rádio dele, e o Dan me relatou como a experiência da filmagem foi boa, mas ele não tinha ideia de quanto do material rodado – e do seu personagem – ficariam no filme pronto. Ficou bastante, Dan. ‘Tu’ tá muito bem (em gauchês), mas tenho de confessar que Mariana Lima, a mãe, Elke Maraviulha, a avó, Marco Nanini, o avô, e Jayme Matarazzo, que faz o protagonista, Paulinho, ’empacotaram’ o filme, roubaram a cópia, a partir de suas cenas, e levaram para casa. Estava escrevendo há pouco sobre ‘Lisbela e o Prisioneiro,’ nos filmes na TV de amanhã. Adoro o filme de Guel Arraes e o Nanini é maravilhoso, mas como esse avô, nunca vi. O filme é pessoal, sem ser necessariamente autobiográfico, como ‘Baaria’. Há muito do pai e da mãe, do avô (que não era músico) e do próprio Jabor em Paulinho, mas aquela não é a história da família dele. Como Fellini, Jabor mente para ser sincero. E o filme também não é  ‘Amarcord’. Lembrei-me muito do ‘Eu me Lembro’, de Edgar Navarro, que, aquele sim, é o ‘Amarcord’ baiano. Comentei com o próprio Jabor, a quem entrevistei, depois de ver ‘A Suprema Felicidade’ – Navarro se lembra, fellinianamente; Jabor faz um caminho mais extenso, ele quer se lembrar e o filme realiza esse movimento de recuperação do tempo vivido, não perdido. Duas ou três cenas de ‘A Suprema Felicidade’ passam a fazer parte da minha vida, do meu imaginário. Paulinho dá porrada no cara que lhe metia medo, mas, em vez de euforia, cai em prostração, e chora, confessando ao amigo, que é gay e o ama, mas ele não sabe, que não quer ser como seus pais; o admirável monólogo da mãe, dizendo que seu problema com o pai é o excesso de amor, que eles não souberam administrar; e o desfecho com o avô. Jabor encerra ali sua viagem pelo passado – no Rio atual. Acaba o tempo da lembrança e do sonho e Paulinho vai ter de amadurecer, de ir para a vida. Puta filme, meu. ‘A Suprema Felicidade’ abre o Festival do Rio, na quinta que vem. Estava apontado para estrear em 8 de outubro, no mesmo dia de ‘Tropa de Elite 2’, o que seria loucura. Foi para 29 de outubro. Dá tempo de passar na Mostra ou, então, vai direto para os cinemas. I’m in heaven. Espero que vocês fiquem, também.