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À Sombra do Vulcão

Luiz Carlos Merten

10 Agosto 2007 | 17h16

Estou tentando fazer dez coisas ao mesmo tempo. Tenho textos para concluir, entrevistas para fazer e, em meio a tudo isso, estou querendo postar, postar e postar, para me compensar dos últimos dias, quando fiquei meio fora do ar. O negócio é o seguinte – meu editor, Dib Carneiro Neto, me repassou um livro que recebeu da L&PM. A editora está lançando À Sombra do Vulcão, um dos melhores romances do século 20 – o 11º, segundo a votação da Modern Library, em 1998 –, numa nova edição de bolso, com tradução de Leonardo Fróes. Você já leu o livro de Malcolm Lowry? Nunca? Viu, então, pelo menos, o filme que dele tirou John Huston, em 1984? Desde que foi publicado, há exatamente 60 anos, À Sombra do Vulcão virou cult, como O Apanhador no Campo de Centeio, do Salinger, ou O Senhor das Moscas, de William Golding. Acho muito interessantes esses livros que viram tótens, atraindo estudiosos como leitores comuns. O Senhor dos Anéis, do Tolkien, é outro exemplo. Sempre ouvi dizer que muita gente quis adaptar O Vulcão. O próprio Buñuel teria tentado, mas não conseguiu, o que criou a lenda do romance infilmável. Isso até aumentou o fascínio do livro, com seu personagem, Firmin, o cônsul inglês em Cuernavaca, que vive sua danação interior no Dia dos Mortos de 1938. O cônsul alcoólatra talvez seja o menos heróico dos anti-heróis. Danação, redenção e perdição andam juntos na sua história, que Huston, de uma hora para outra, adaptou com base no roteiro que Guy Gallo retirou do livro. Não sei mais se estou querendo falar do romance ou do filme. Já escrevi que pertenço a uma geração que teve problemas com Huston. Com o tempo, terminei por admirá-lo (e defendê-lo) como grande, mas houve uma época, nos anos 60, em Porto Alegre, em que a jovem crítica não aceitava a famosa declaração de Huston de que nunca teve consciência de possuir um estilo, preferindo adaptar-se a cada história que queria contar. Acho que há um Huston antes e depois de Freud, Além da Alma, que ele ia fazer, em 1962, com roteiro de Sartre, mas o tal roteiro também era infilmável, porque daria, segundo o diretor, um filme de, sei lá, dez horas. A descoberta da psicanálise liberou Huston e eu acho que só depois ele fez seus maiores filmes – A Noite do Iguana, Os Pecados de Todos Nós, À Sombra do Vulcão, O Homem Que Queria Ser Rei e Os Vivos e os Mortos, que eu (só posso falar por mim) prefiro a O Falcão Maltês, que é muito bom, e O Segredos das Jóias, que é melhor ainda (e os dois são clássicos noir). Acho o livro do Lowry genial. Quando vi o filme pela primeira vez, achei que Gallo e Huston haviam edulcorado o grande escritor. Com o tempo descobri que não e a obsessão de Firmin pela morte, filmada por Huston, me parece uma tragédia moderna. Huston foi uma figura única. Adorava Sartre e Buñuel, gostando de contar histórias em que a vontade de lutar de seus personagens chocava-se sempre com a certeza do fracasso (e eles lutavam por uma questão de consciência, mesmo sabendo que não teriam êxito em suas empresas gigantescas). Leiam o livro, vejam o filme. Saiu em DVD no Brasil? Acho que não. Eu não tenho (o DVD). Nesses casos, a salvação é a Amazon, embora, claro, muitos de vocês prefiram baixar da internet.