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Luiz Carlos Merten

16 Maio 2008 | 10h27

CANNES – Fui salvo ontem por Tiago Stivaletti. Havia passado o dia correndo atrás do prejuízo por haver perdido a sessão de imprensa de `Leonera`. Isso bagunçou todo o meu planejamento de horários do dia. Lá pelas tantas, estava postando quando o Tiago me perguntou se eu não ia ver ‘Peppermint Frappé’, na abertura de Cannes Classics? Havia perdido completamente a noção do tempo. Quase morri correndo. Cheguei ofegante, colocando o coração pela boca, mas consegui assistir ao filme que foi apresentado pelo filho de Carlos Saura, Antônio, já que o pai pegou um virus e está de cama em Madri. Nunca havia visto ‘Peppermint Frappé’, o ‘Corpo Que Cai’ de Saura, sobre este médico obcecado pela mulher do amigo e que transforma sua enfermeira – Geraldine Chaplin faz os dois papéis – em cúmplice do seu plano para assassinar a dupla. ‘Peppermint Frappé’ tem a cara dos anos 60 e foi, aliás, o filme que deveria ter sido projetado, há 40 anos, quando o festival foi interrompido por Godard, Truffaut, Malle e Polanski, em solidariedade ao movimento dos estudantes, em Paris, naquele célebre Maio. Antonio disse uma coisa interessante. Seu pai devia apostar muito de que tinha uma grande carreira pela frente para ter a coragem – um jovem diretor vindo de uma ditadura como a de Franco, na Espanha – de subir ao palco e puxar a cortina para impedir que o filme fosse exibido. Antonio passou à platéia o recado de Geraldine Chaplin, ex-mulher do diretor. Para ela, a reexibição – a exibição copmpleta – de ‘Peppermint Frappé, em Cannes Classics, encerra um affair que permanecia aberto. O filme é dedicado a Luis Buñuel e a cópia zero bala faz justiça à fotografia de Luis Cuadrado (Theo Escamilla era o câmera). Seria legal se o Frestival do Rio ou a Mostra de São Paulo recuperassem ‘Peppermint Frappé’ também para o público brasileiro.