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Luiz Carlos Merten

12 Agosto 2009 | 16h28

GRAMADO – Rodrigão me esclarece que o DVD que devo ter recebido em casa é de ‘A Sereia do Mississipi’, um Truffaut que acaba de ser lançado pela Versátil. O filme é de 1969 (acho) e foi realizado após ‘A Noiva Estava de Preto’. Os dois são adaptações de Wiiliam Irish, pseudônimo adotado pelo escritor Cornell Woolrich. Na obra do diretor, representam a vertente ‘hitchcockiana’, que os críticos em geral não consideram a melhor. Eu próprio considero o melhor Truffaut ‘rossellianiano’, o de ‘O Garoto Selvagem’. Não revi ‘A Sereia’, o que vou escrever aqui é de memória. ‘A Noiva’, com Jeanne Moreau no papel de Julie Kohler, nome que, em francês, so como ‘colère’ (colér, cólera), conta a história dessa mulher cujo marido é morto na porta da igreja, logo após o casamento. O assassimnato foi a consequência – tráfgica – de uma brincadeira e ela busca os assassinos para se vingar. Elimina um a um. Para matar o último, ionfiltra-se numa cadeia. O final do filme mostra Jeanne Moreau presa e as cadeia é a metáfora do ódio no qual está encerrada, uma mulher que perdeu a alma. Mais do que Hitchcock – e o suspense -, sempre tive para mim que a verdadeira inspiração de ‘A Noiva’ foi Robert Aldrich, mas nunca ninguém perguntou a Truffaut e ele também nunca se sentiu tentado a esclarecer. Revi o filme há relativamente pouco tempo na TV paga e ele me pareceu melhor do que a memória – e sua reputação – me autorizavam esperar. “A Sereia’ mostra Jean-Paul Belmondo como um plantadort der tabaco que contrata noiva por correspondência. Não me lembro do nome do personagem masculino e nãoi vou pesquisar na TV, mas ela, a noiva, a sereia tenho certeza de que se chama Julie Roussel (Russél). É uma farsante que foge com todo o dinheiro do marido e Belmondo segue atrás dela com a mesma cerga obstinação de vingança, a mesma ‘cólera’, de Jeanne Moreau no filme anterior. Quando ele chega a Julie/Catherine Deneuve, que faz o papel, ela agora é Marion. A dupla personagem de Deneuve é a versão truffautiana de Madeleine/Judy (Kim Novak) em ‘Um Corpo Que Cai’,. com a diferença de que Belmondo, ao contrário de James Stewart, não a recria de ‘entre os mortos’, mas busca para matar. Truffaut, muito se escreveu – eu mesmo -, era um romântico que desconfiava do romantismo e um homem que amava as mulherres tanto quanto quanto vivia em guarda contra a ternura e crueldade que muitas delas apresentam em seu cinema. À caça da mulher que o traiu, ele se marginaliza e, para mim, a cena chave é quando ele espia, pela janela, a reunião familiar. O herói renunciou a seu meio pequeno burguês por amor (ou vingança). Acho que todo Truffaut está ali. O pequeno marginal, que ele era antes de ser resgatado por André Bazin – e seu amor pelo cinema -, buscava a integração amorosa e social e, ao mesmo tempo, a rejeitava porque no fundo era o universo de ‘papa’ (papai), que abominava como crítico. Se ‘A Sereia’ é de 1969, deve ter estreado no Brasil em 1970, por aí. Catherine havia começado com seu então marido, Roger Vadim, por volta de 1960. Ao longo da década, e trabalhando com Démy (‘Os Guarda-Chuvas do Amor’), Polanski (‘Repulsa ao Sexo’) e Buñuel (‘A Bela da Tarde’), ela esculpira o mito da inocente perversa, da bela frígida. ‘A Sereia’ constrói-se no mito da ambivalência da atriz (e da personagem), embora o ponto de vista seja masculino, do personagem de Belmondo. O filme é contemporâneo, acho que do mesmo ano, de ‘Tristana’, de Buñuel, que usou um romance de Pérez Galdós para radicalizar não só a ambivalência da heroína, mas a construção dramática de ‘Belle de Jour’. No filme anterior, realidade e imaginação eram filmados em bloco (e a representação do sonho, só para pegar carona no que estou dizendo, é a pior coisa de ‘Quase Um Tango’, de Sérgio Silva, que abriu domingo o festival aqui em Gramado). Uma das coisas mais extraordinárias que já vi é justamente o desfecho de ‘Tristana’, quando o relasto recua e passa quase que ao contrário, para se descontruir. Buñuel era maior que Truffaut? Era, o que não me impede de querer rever ‘A Sereia’, quando voltar a São Paulo, e também de amar ‘Os Incompreendidos’, ‘O Garoto Selvagem’ e ‘Jules e Jim’ (que Sérgio Silva cita em ‘Quase Um Tango’, vale acrescentar).