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Luiz Carlos Merten

01 Maio 2007 | 11h47

Deu a louca na astronomia. O sistema solar perdeu um planeta e acaba de ser descoberto outro com as mesmas características da Terra, uma segunda Terra, na constelação de Libra. Como todo mundo, estou muito curioso com essa história toda. E se for mais velho? Se for a primeira Terra e nós estivermos habitando a segunda? Quero aproveitá-la para falar de Robert Parrish. Robert quem? Ninguém mais fala desse antigo assistente e montador de John Ford em vários filmes. Parrish, que morreu em 1995 – fui checar no Dicionário de Cinema do Jean Tulard -, iniciou sua carreira como documentarista. No começo dos anos 50, virou diretor de ficção. Fez dois westerns cultuados pela crítica francesa (Irmão contra Irmão e Terra Maravilhosa) e um spaghetti western que os franceses (de novo eles) consideram o melhor exemplar do gênero que não foi assinado por Sergio Leone, Uma Cidade Chamada Bastardo. Justamente os franceses não gostam de Paris, Cidade das Ilusões, que eu nunca mais vi, mas na época, no começo dos anos 60, ainda garoto, fiquei muito impressionado com o filme interpretado por Jean Seberg, no auge da beleza e do talento, e Stanley Baker. Eram os anos de afirmação da nouvelle vague, Jean foi a primeira musa de Godard, e eu, confesso que sem muita base de sustentação, achava In the French Style (título original) o mais nouvelle vague dos filmes que não haviam sido realizados por diretores do movimento. Mas essa história está ficando muito comprida e eu volto à segunda Terra. Em 1971, com a ficção científica em alta, após o sucesso de 2001, do Kubrick, Parrish fez um filme que só os franceses (sempre eles) amaram. Odisséia para Além do Sol conta a história de uma expedição que descobre um planeta rigorosamente simétrico à Terra, mas, como deixa claro o título, do outro lado do Sol. O filme é interpretado por Roy Thinnes, da antiga série Os Invasores (lembram-se dela?) e eu fiquei muito intrigado com a trama. O personagem vive como se atravessasse um espelho, mas as situações são sempre invertidas. E há uma pequena defasagem de tempo, o que criava uma tragédia. Quando ocorre uma coisa aqui, será possível evitar que ela se repita lá, ou vice-versa? Existem filmes que somem na vida da gente. Às vezes é até bom que isso ocorra. Não são todos (nem muitos…) os filmes que resistem à passagem do tempo. Mas e se a segunda Terra de Robert Parrish ainda for interessante? Atual, pelo menos, é. Senhores programadores de TVs (abertas e pagas), distribuidores de DVDs… Quem sabe?