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Cultura » A segunda morte de Richard Fleischer

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Luiz Carlos Merten

20 Novembro 2011 | 22h55

Aleluia! Finalmente, consegui (re)ver hoje ‘Mandingo’, no ciclo Tela Negra, sobre os blaxploitation movies. O ciclo transferiu-se do CCBB/São Paulo para o CineSesc. Na época, havia me impressionado muito com o filme de Richard Fleischer, pela franqueza com que o diretor abordava o tema das relações sexuais entre senhores e escravos. Em seu guia de filmes, Leonard Maltin define ‘Mandingo’ como bomba e isso é, em geral, o que os críticos pensam do trabalho de Fleischer. Trash, é o que diuzem. Uma ova – o próprio diretor defendia-se, dizendo que, em sua carreira, podia ter errado muito, mas apenas dois filmes não saíram como queria, e em ambos por interferência dos produtores ou do estúdio. O Che de Omar Sharif, ‘Causa Perdida’ no Brasil, e ‘Mandingo’. Fleischer fez o anti-‘…E o Vento Levou’, na contracorrente da visão romântica do Sul escravocrata do épico de David Selznick. Acho que nem hoje em dia, ou muito menos hoje em dia, Hollywood teria coragem de mostrar aquelas cenas de sexo de wasps e afro-descendentes, ou então o nu frontal de homens e mulheres. A cena de sexo de Susan George com o mandingo, Ken Norton, era e continua sendo uma audácia e uma provocação. Onde andará Susan George? Não creio que fosse muito boa atriz, mas, antes do filme de Fleischer, não podemos esquecer que ela foi sodomizada em ‘Sob o Domínio do Medo’ (The Straw Dogs), de Sam Peckinpah, que acaba de ganhar nova versão. Tremo só de pensar no que terá saído. Susan não dava mole, não. O ‘Mandingo’ de Fleischer tinha quase quatro horas, reduzidas para pouco mais de duas pelo produtor Dino De Laurentiis. O filme propõe uma visão devastadora de uma sociedade em declínio – em 1975, quando os EUA e suas instituições chafurdavam no escândalo de Watergate. A sessão terminou e, como no sábado, feito reloginho, eu tinha de correr para o Sesc Vila Mariana, para ver, no teatro, o Chekhov do Grupo Galpão, ‘Tio Vânia’. Mesmo com as possíveis ressalvas que possa ter, ou fazer, gostei demais do espetáculo e o texto é magnífico, com aquela cena final de Vãnia e Sônia que é de cortar os pulsos pelo que eles dizem. Mas, enfim, entrei no banheiro do CineSesc e flagrei os comentários do público sobre ‘Mandingo’. Era um tal de detestar o filme que me bateu um desânimo. Pensei com meus botões – a segunda morte de Richard Fleischer. Estou até agora impactado, e mesmo tendo passado pela experiência de alta cultura de ‘Tio Vânia’.