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Cultura » A segunda morte de Jorge Semprun

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Luiz Carlos Merten

10 Junho 2011 | 15h53

Nada como trabalhar dentro de um jornal para ficar por fora da notícia. Volta e meia gosto de usar a piada. Mas na terça precisei sair cedo da redação para ir ao banco e ao cinema. A notícia da morte de Jorge Semprun chegou depois que o ‘Caderno 2’  havia fechado e Antônio Gonçalves Filho fez o necrológio, que saiu nas páginas de Mundo. A notícia me passou despercebida e os dias seguintes não foram fáceis para mim. Na edição de hoje do ‘Estado’, Semprun volta ao ‘Caderno 2’. Confesso que o fato de estar doente, em casa, me deixa mais vulnerável. Estava assim quando li ‘A Segunda Morte de Ramón Mercader’. Conhecia Semprun como roteirista de cinema, mas aquele foi seu primeiro romance que li. Estava hospitalizado, com hepatite B. Atravessava uma fase particularmente difícil. Havia me separado, terminara um affair. Fiquei muito tempo sozinho, ou pelo menos isolado no hospital. Me sentia um trapo. Já contei como me salvou ouvir um dia no rádio aqueles versos imortais – ‘O sol/há de brilhar mais uma vez…’ Semprun escreveu os roteiros de dois filmes de Alain Resnais de que gosto muito, ‘A Guerra Acabou’ e ‘Stavisky’. Ele também escreveu ‘Z’ e ‘A Confissão’ para Costa-Gavras. Lembro-me da indignação de amigos de esquerda no começo dos anos 1970. ‘Z’, contra o regime dos coroneis gregos, havia sido proibido – certamente pela solidariedade de caserna – pela censura dos militares no Brasil. Neste quadro, com ‘Z’ proibido, estreou, mesmo assim com cortes, ‘A Confissão’. Sempre me admirei de que Semprun, tendo pertencido ao Comitê Central do Partido Comunista Espanhol, tenha escrito um filme tão antistalinista, mas ascho que, na cabeça dele (e de Costa-Gavras) como na minha, ‘Z’ e ‘A Confissão’ formam um bloco de notável coerência, ideológica e humanista. Os coleguinhas não entendiam e, no fundo, creditavam a Semprun o uso que o regime militar estava fazendo do processo contra Arthur London. O que sei é que quando li ‘A Segunda Morte dev Ramón Mercader’, tive uma das experiências seminais da minha vida. O público e o privado, o histórico e o sociológico, tudo se misturava na recriação que Semprun fez da história do alegado assassino de Trotsky. Naquela época, já havia visto ‘O Assassinato de Trotsky’, que não é um dos meus filmes favoritos de Joseph Losey, e o Semprun me dava um outro olhar sobre aqueles personagens. O próprio formato, o embaralhamento dos tempos, era Resnais e por isso a parceria dos dois foi tão fecunda. Sempre pensei comigo, é agora uma reflexão que faço com vocês, que Resnais estetizou a política em ‘Hiroshima, Meu Amor’ e ‘Muriel’ e que foi Semprun quem politizou Resnais com seu retrato do personagem de Yves Montand em ‘La Guerre Est Finie’. Só para fechar o capítulo Losey do post, Semprun também escreveu ‘Rotas do Sol’, que talvez seja o filme mais estranhos do autor de ‘Eva’. Dois fugitivos, numa terra de ninguém, acossados por um helicóptero. Não sabemos quem são nem do que fogem. Existem poucos diálogos.A situação permanece nebulosa – uma alegoria? Li depois ‘A Algaravia’ e o relato de Semprun sobre Buchenvald. Ter 20 anos no campo de concentração. Choro só de lembrar. Semprun pertencia a uma ilustre família espanhola. O avô, conservador, foi não sei quantas vezes primeiro-ministro na monarquia. O pai era republicano. Semprun foi comunistas (de carteirinha) e, na França, uniu-se aos maquis (a Resistência) para combater os nazistas. Foi preso e deportado para Buchenvald. Já contei que, em Paris, me impressionam muito aquelas placas que a gente volta e meia encontra na rua – ‘Aqui tombou…, combatente da liberdade, que deu a vida pela França enfrentando os ocupantes nazistas.’ Em geral eram jovens e eu sempre paro e imediatamente fico tecendo alguma história na minha cabeça. Quem seriam esses jovens, o que os impulsionava? E aí penso em Semprun, porque a literatura dele, mais do que todos os filmes que vi sobre a Resistência, me esclarecem sobre o assunto. Não, sinto que agora não estou sendo sincero, porque há um filme antigo, que vi garoto no cine Colombo, em Porto Alegre. É um filme de um diretor considerado menor, Henri Décoin, mas que carrego comigo, ‘La Chatte’, A Gata, e que permanece, no meu imaginário, como uma das melhores reconstituições daquela época. Terminei misturando alhos com bugalhos, como sempre. Volto a Semprun. Foi um grande autor, mas também um grande personagem. E eu agradeço ao Paulo Antunes por me ter permitido acrescentar o post, mesmo que tardiamente. Quanto ao título… Semprun, em Buchenvald, sonhava em fugir, trocando de identidade com algum prisioneiro que morresse. O cara morreria com seu nome, ele viveria com o dele. Embora exista o codinome de Ramón Mercader – e o próprio Semprun militava no comunismo sob o pseudônimo de Federico Sanchez -, a experiência o obceva tanto que deve ter ajudado a dar nome ao romance célebre.

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