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Luiz Carlos Merten

28 Setembro 2008 | 14h49

RIO – Havia gente subindo nas tamancas para reclamar de ‘A Rinha’, no final do filme de Marcelo Galvão, no fim da noite de ontem. Na verdade, a reclamalção nem era contra o filme do cara, mas contra a organização do festival, que colocou ‘A Rinha’ na mostra competitiva da Prenmière Brasil, a maior vitrine atual do cinema brasileiro em, eventos no próprio País. ‘A Rainha’ é o ‘Mortal Kombat’ do cinema brasileiro, com a desvantagem de não ter o jogo por trás, para torná-lo mais atraente pelo menos para a garotada que curte o videogame. O filme não tem história, apenas uma sucessão de lutas costuradas por um tênue fio que Marcelo acredita conter um outro olhar sobre a complexa questão da violência no Brasil. Da violência na periferia, em que as pessosas, afinal, matam para tentar sobreviver, saltamos para a dos filhinhos de papai da elite, que só querem se divertir (e tem dinheiro para as drogas e para que homens, transformados em cães raivosos, se matem ou morram numa piscina improvisada em arena, neste novo Coliseu). O filme é horrível, não tenho outra definição. Quem quiser defendeer, que defenda. Imagino que o festival, ao selecioná-lo, quisesse abrir o espectro do cinema brasileiro, onde existe uma produção de arte e outra comercial, mas que um filme desses integrar uma mostra competitiva é um convite para que a crítica caia matando, ah, isso é. Os coleguinhas estão todos agitados, à beira de um ataque de nervos, no fim da sessão, e com razão. Marcelo Galvão já tinha feito, a título de provocação, aquele outro longa que fez certa sensação na Mostra de São Paulo, sobre maconha na sala de aula. Como era mesmo o título, ‘Classe 2’? O curioso, e o que merece discussão é o seguinte. Marcelo e equipe subiram ao palco do Cine Odeon BR para que o diretor dissesse que tentou captar para o projeto de seu coração, um filme sobre portadores da síndrome de Down, ‘Colegas’. Ele não conseguiu apoio de nenhuma diretoria de Marketing porque as empresas simplesmente não querem ligar sua marca a um filme sobre o assunto. Estamos de volta aos tempos do nazismo, com a diferença de que os neonazistas do liberalismo econômico não matam mais retardados, aleijados e o escambau. Condenam essas pessoas à invisibilidade e isso é cruel numa sociedade da imagem, como a atual. Em geral, dá m… Mas, enfim, voltemos ao Marcelo. Como não consegue dinheiro para o filme que sonha fazer, Marcelo tira dinheiro do bolso – dele e de amigos produtores – para fazer esse outro que é uma demência pela gratuidade e mediocridade. Não estou entendendo. O diretor quer lei de incentivo para seu filme ‘difícil’ e põe dinheiro do bolso num filme que ele acha que é comercial, e até fez em inglês, pensando no mercado internacional? Digamos que a intenção seja boa – formar, como se diz, um ‘lastro’ comercial para depois investir em filmes melhores e mais sérios. A Première Brasil já tem outro filme com este perfil, ‘A Vingança’, que concorreu em Gramado e não ganhou nada, de crítica nem de público, sinal de que alguma coisa pode ter falhado na equação. De minha parte, só acho que faria muito mais sentido Marcelo usar o pouco dinheiro que tem para fazer o filme sonhado, do que querer minha simpatia por um filme ruim só porque, na eventualidade de agradar ao público, talvez lhe dê o dinheiro para fazer um trabalho melhor. Coisa mais esquisita.

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