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Luiz Carlos Merten

10 Março 2011 | 09h14

Tive ontem um dia de cão. Pela manhã, cheguei cedo à redação do ‘Estado’ para redigir a capa de hoje – a entrevista com Fabiula Nascimento –, mais filmes na TV e tentar algumas entrevistas internacionais por telefone. À tarde, tinha de resolver problemas decorrentes do furto de documentos e cartões. No meio da tarde, estava no centro, senti-me mal. Vomitei, tive de m e agarrar a um poste para não cair. Devia passar uma péssima imagem – a de um velhinho pândego. Peguei um táxi e fui para casa. Joguei-me na sala a ver TV. Foi me dando um frio – a gripe me pegou. Também, desfilar na chuva no Rio, pinchar a fantasia fora – como gosta de dizer minha colega Léo Brioto – e andar pela madrugada sem camisa… Paguei o preço. Ou melhor, estou pagando. Vamos por partes, começando por falar de filmes. Na terça à noite, mal chegamos do Rio, Dib Carneiro e eu – Leila Reis e Fátima Cardeal voltaram ontem –, fomos jantar com Regina Cavalcanti e João Luiz Sampaio para dar conta de nossa experiência na Sapucaí. Enquanto esperava que me apanhassem, dei uma zapeada na TV paga e estacionei em ‘A Rainha’. É curioso, mas, às vezes, quando pego um filme no meio, como aqui, minha percepção fica diferente. Sem estar preso à curva dramática da história nem dos personagens, percebo melhor as nuances da mise-en-scène. Por exemplo, tem uma cena que vale sozinha o filme de Stephen Frears. O príncipe consorte, Philip, tem uma cena íntima com a mulher. A rainha assiste a um programa de TV sobre a princesa do povo. Philip critica o filho, o príncipe Charles, que não conseguiu domar a mulher e acrescenta que é o que os maridos fazem. Elizabeth olha para ele, por cima dos óculos. O rosto traduz certa irritação – ‘Really?’ O filme ficcionaliza a realidade, por vezes parece um docudrama. Frears usa imagens de cinejornais, uma entrevista da própria Lady Di, em que ela contas como foi maltratada pela família real. Philip, de novo, desdenha. James Cromwell é tão perfeito no papel quanto Helen Mirren. Mais tarde, ou antes, estou meio perdido no tempo, o assessor pessoal da rainha diz que as manifestações populares e a cobertura da mídia – a própria declaração do primeiro ministro –, foram excessivas. Mas, ao seu lado, no círculo palaciano, as pessoas choram. Frears fez diversos filmes sobre as classes trabalhadoras, sobre outsiders (e marginais). Não parecia o diretor mais indicado para filmar os códigos da realeza. Saiu-se melhor do que a encomenda, porque ele capta uma certa vulgaridade inerente a esse cerimonial que data de quanto, séculos. Todos os preparativos para o primeiro encontro de Tony Blair com Elizabeth II são muito bem detalhados (e carregam o próprio ridículo). A soberana o intimida. Diz que Winston Churchill sentou-se naquela mesma cadeira e ensinou muita coisa a uma jovem inexperiente. É o que Elizabeth espera fazer com seu premier – domá-lo. O detalhe da bolsa é maravilhoso, uma bolsa quadrada, enorme, da qual ela não se separa e que mantém ao lado, na poltrona. Alguém consegue imaginar uma dona de casa comum – e Elizabeth parece comum – recebendo seus convidados de bolsa, dentro de casa? A mais bela cena do filme é o desabafo de Charles, quando ele diz que, apesar de tudo, Diana era uma boa mãe, que não tinha medo de externar seu amor pelos filhos. Isso provoca outra manifestação de enfado da rainha. Essa mulher foi criada/educada para secretar suas emoções. O dia em que Tony Blair salvou a monarquia inglesa foi justamente aquele em que conseguiu retirar dessa mulher fria uma (rara) demonstração de fragilidade. É quase o contrário de Luchino Visconti, que dizia que todos os seus filmes eram sobre sua família e os sonhos destroçados da aristocracia a que pertencia. Os nobres italianos – de Visconti – são personagens de óperas. Verdianos, excessivos, mesmo que, na fase alemã, Gustav Mahler e Richard Wagner forneçam o espírito (além da trilha). Lamentei, sinceramente, que meus amigos tivessem chegado antes do fim de ‘A Rainha’. Não pude vê-lo inteiro. Tenho o DVD em casa, mas não é a mesma coisa. Gosto dessa ideia de que, simultaneamente comigo, outras pessoas também estão ligadas na projeção.