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Cultura » A Rainha? Não, Tony Blair

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Luiz Carlos Merten

02 Outubro 2006 | 13h11

Meia-noite de ontem no Cine Odeon BR. Havia pouca gente para assistir a A Rainha. O filme de Stephen Frears deveria ter sido exibido no primeiro fim de semana do Festival do Rio, mas a cópia não chegou. Ganhou sessões como esta, que não se pode dizer que tenha sido um sucesso. Pior para o público. A Rainha passou em Veneza, onde Helen Mirren ganhou o prêmio de melhor atriz. Ela só não vai para o Oscar se o filme não estrear a tempo nos EUA. Helen está impressionante como a rainha Elizabeth II e o mais curioso é que ela havia feito, pouco antes, um telefilme (com Jeremy Irons) sobre a rainha Elizabeth I. Nos anos 80, Frears fez vários filmes refletindo a Inglaterra da Dama de Ferro, Margaret Thatcher, a quem sempre criticou, duramente. Agora ele faz esse filme que parece estranho, baseado no impacto da morte de Lady Di sobre a família real inglesa (e o próprio reino). Aparentemente, é um filme sobre a rainha, que precisa vencer seu preconceito contra a princesa, sob pena de perder o respeito de seu povo. Na verdade, o tema é outro. Frears, que não é bobo, fez um filme sobre Tony Blair e como ele, um premier trabalhista, comprometido com um projeto de modernização da Inglaterra, salvou a realeza. Tudo leva para esse diálogo dele com a rainha, na última cena, quando Sua Majestade diz que naquele momento o prémier está sendo amado pelo povo, mas isso vai passar. Sem dizer uma palavra sobre o asssunto – afinal, passa-se em 1997 -, o filme tem um subtexto que remete ao pós-11 de Setembro e à reação negativa que Blair provoca, dentro e fora do país, por seu apoio incondicional a George W. Bush. Outro grande inglês, Ken Loach, também fez The Wind that Shakes the Barleys, usando a Irlanda, nos anos 20, para refletir sobre o papel dos ingleses no Iraque, na atualidade. Blair virou saco de pancada no Festival do Rio. Mas ele merece, ah, merece.