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Cultura » A propósito de Chaplin

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Luiz Carlos Merten

28 Dezembro 2007 | 09h05

Pautados pelo Josafá, meu colega Luiz Zanin Oricchio e eu estamos lembrando os 30 anos da morte de Charles Chaplin, no ‘Cultura’ de domingo. Escrevi o texto ontem à tarde, um dos muitos que tive de produzir nesta quinta-feira. Mas escrevi exaltado, como ocorre quando o assunto me toca. Chaplin foi um grande do cinema e seu personagem Carlitos superou o criador. Tornou-se imortal. É até lugar-comum ficar lembrando os grandes filmes de Chaplin – ‘Em Busca do Ouro’, ‘O Circo’, ‘Luzes da Cidade’, ‘Tempos Modernos’. Foi o último Carlitos e quando Chaplin se afasta com Paulette Goddard naquela estrada pode-se ver não só uma aspiração romântica do autor – o afeto como resistência à automação dos tempos modernos -, mas também uma despedida. Carlitos não aparece mais em ‘O Grande Ditador’ nem em ‘Monsieur Verdoux’, ‘Luzes da Ribalta’, ‘Um Rei em Nova York’ e ‘A Condessa de Hong Kong’. Engraçado – posso reconhecer o gênio por trás de ‘Em Busca de Ouro’ e rir, espontaneamente, da imagem de Carlitos comendo aqules cordões de sapatos como se fossem fios de macarrão, mas meus Chaplin(s) preferidos são dois, ‘O Grande Ditador’ e ‘Luzes da Ribalta’. Chaplin havia criado Carlitos sobre uma característica do filme mudo – a aceleração da imagem. Talvez tenha sido por isso, por perceber que o sonoro, ajustando som e imagem, mataria seu personagem, que ele resistiu quanto pôde a fazer cinema falado. Existe som em ‘Luzes da Cidade’ e ‘Tempos Modernos’, mas Chaplin só concede valor dramático à palavra no discurso final de ‘O Grande Ditador’, que é, para mim, um monumento da arte. Só mesmo um grande artista para fazer aquela fusão. Ele chamou a personagem de Hannah, como sua infeliz mãe, que morreu louca (e pobre), e a fez interpretar por sua mulher, Paulette Goddard. Freud teria farto material, se deitasse Chaplin em seu divã e a psicanálise ajuda a entender – se é mesmo que a história é verdadeira – por que Hitler se fazia projetar ‘O Grande Ditador’ secretamente. (Pode nem ser verdade, e talvez não seja mesmo, mas como história é ótima.) Tanto quanto amo este filme, me encanta ‘Luzes da Ribalta’, com Chaplin na pele daquele velho Calvero que sabe que chegou ao fim e cede espaço à jovem bailarina Claire Bloom. Não conheço cena de humor mais triste do que aquele número de pulgas, que une Chaplin a outro grande, Buster Keaton, o homem que nunca ria. Reconhecendo a grandeza de Chaplin como artista – e como homem, pois ele lutou por suas convicções, e foi por causa delas estigmatizado –, acho que a gente nunca reconhece o óbvio. que ele foi, com Griffith, Mamoulian, Orson Welles e alguns outros, um dos grandes que fizeram avançar a técnica e a linguagem do cinema. Um dos filmes mais impressionantes de Chaplin, muito adiante de sua época, foi ‘Casamento ou Luxo?’ (The Woman of Paris). Tecnicamente, já era um filme moderno (em 1923!) e seu olhar sobre as convenções sociais é demolidor. É como se a gente tivesse de viajar ao passado para conhecer o presente (e até o futuro). Paradoxo? Pode ser, mas eu confesso que não entendo muito o ponto do Fábio, quando diz que busca no cinema os seus preferidos, não os preferidos de seu pai. Sem querer ser ofensivo, eu faria uma psicanálise elementar e diria que o problema não é do cinema, mas do Fábio com seu pai. Quem foi que disse que ‘A Ponte do Rio Kway’ está superado e que para entender a guerra a gente tem de ver o Brian De Palma, ‘Casualties of War’? Pelamor de Deus… Acho que esse tipo de raciocínio ocorre muito no cinema porque, de todas as artes, é a que mais se utiliza do desenvolvimento tecnológico, e ele está sempre em processo. Não ouço ninguém reclamando do teatro grego, das sinfonias do Betthoven, das indagações metafísicas de Dostoievski nem das sombras do Goya. É só no cinema que existe esta coisa de que Hitchcock já era e o bom dele é o que se pode ver que foi absorvido por Indiana Jones. Discordo deste tipo de raciocínio. Existem filmes de David Lean de que eu não gosto – detesto aquela balalaica e o arco-íris desenhado sobre a represa no final de ‘Doutor Jivago’ –, mas aprendo muito mais sobre a guerra, e as relações humanas, assistindo a ‘Rio Kway’ do que a ‘Pecados de Guerra’, com certeza. Nem me lembro mais se foi o Fábio que também reclamou de rir de torta na cara, como se fosse a coisa mais velha do mundo. Eu rio! Em ‘A Corrida do Século’, Blake Edwards conduz o tema da guerra dos sexos para uma batalha de tortas entre Tony Curtis, Natalie Wood e Jack Lemmon. Devo ter um parafuso a menos, porque morro de rir daquilo. A cena que mais me faz rir no cinema é também uma das mais cretinas, em outro filme de Blake Edwards. Em ‘The Party’, que se chamou no Brasil ‘Um Convidado Bem Trapalhão’, Peter Sellers, no papel do ator indiano Hrundi Bakshi, que entra como penetra na festa de um superprodutor de Hollywood, vai ao banheiro. Ele puxa o papel higiênico e fica olhando o rolo que vai desenroscando até não sobrar papel nenhum. Só isso. Já devo ter visto umas cem vezes e rio, cada vez, como se fosse a primeira. Estou rindo, agora. Não entendo o desprezo pelo antigo. Filmes mudos como ‘Terra’, do Dovjenko, e ‘Aurora’, do Murnau, me parecem mais vivos do que obras recentíssimas. Pois a verdade é essa – a idade cai bem nas obras que o tempo respeita. Mas isso vocês já sabem – que eu penso assim. Meu filme favorito contrinua sendo ‘Rocco e seus Irmãos’, feito há 47 anos. O filme é o mesmo, eu mudo e a minha percepção dele muda cada vez que o vejo. Espero chegar aos cem anos descobrindo coisas que ainda não vi e compartilhando com vocês minhas descobertas sobre a obra-prima do meu querido Luchino visconti.