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Luiz Carlos Merten

31 Dezembro 2010 | 14h24

Houve um momento, antes da filmagem de ‘Acossado’, em que Jean-Luc Godard quase perdeu Jean Seberg. Ela estava presa por um contrato de exclusividade a Otto Preminger e precisava da autorização do cineasta para fazer um dos filmes faróis da nouvelle vague. Godard confidenciou a Bernadette Laffont – se não conseguisse Jean Seberg, ele ia desistir de Jean-Paul Belmondo e faria o filme com ela – Bernadette – e Charles Aznavour. Teria sido outra coisa. Melhor? Dificilmente… Bernadette Laffont conta isso na edição de outubro de ‘Cahiers du Cinéma’, que homenageia Claude Chabrol, morto no mês anterior. O título da entrevista com Bernadette não poderia ser mais sugestivo – ‘La première vague’, A primeira onda. Entre 1957 e 61, Bernadette foi a estrela do período nouvelle vague de Chabrol. Ela conta que era casada com Gérard Blain e que François Truffaut havia elogiado o marido pelo filme de Julien Duvivier, ‘Sedução Fatal’ (Voici les Temps des Assassins). Blain telefonou a Truffaut para agradecer e nasceu daí uma amizade que levou a que Blain e Bernadette fizessem o curta ‘Les Mistons’ e, depois, ‘Nas Garras do Vício’ (Le Beau Serge), o primeiro Chabrol que, por sinal, está saindo em DVD. Bernadette lembra os tempos heroicos da nova onda. Fala do ciúme entre os autores. Todos queriam ser os pigmaliões das novas Galatéias. Quando Truffaut ofereceu um papel para Bernadette em ‘Atirem sobre o Pianista’, Chabrol rapidamente lhe propôs outro, para evitar que ela aceitasse. Ela fazia a própria maquiagem e escolhia o figurino nos filmes de Truffaut e Chabrol. Seu papel em ‘Le Beau Serge’ parecia vir do cinema mudo – Jacques Doniol Valcroze dizia que ela era uma vamp cômica. Sua blusa decotada era uma imitação de Brigitte Bardot em ‘E Deus Criou a Mulher’, de Roger Vadim, e o blusão de couro de Gérard Blain era uma reminiscência de James Dean, que ele (Gérard) adorava. Não sei do interesse de vocês por essas velhas histórias, mas eu adoro, sem ser necessariamente nostálgico. Elas sempre me trazem alguma coisa. Iluminam a obra, e o artista. ‘Cahiers’ observa para Bernadette, meio en passant, que ‘Les Bonnes Femmes’, de Chabrol é o grande filme esquecido da nouvelle vague e ela diz que é a obra-prima do diretor. Bernadette diz que nunca deixa de rever ‘Les Bonnes Femmes’, sempre que tem oportunidade, porque é um filme extraordinário e ela sempre descobre alguma coisa nova naquelas imagens. Por exemplo, tem uma cena noturna numa boate, uma explosão de violência, um nariz falso. Bernadette está segura de que Stanley Kubrick viu ‘Les Bonnes Femmes’, aquilo ali  é a antecipação de ‘A Laranja Mecânica’. Havia comprado essa ‘Cahiers’ e esquecido, mas me lembrava que tinha um texto de um historiador sobre ‘Fora da Lei’, de Rachid Bouchareb, que estreia hoje (amanhã, porque hoje a maioria das salas está fechada). Procurei a revista e a trouxe para o jornal, para um box na edição de sábado do ‘Caderno 2’. Li a entrevista de Bernadette no táxi e resolvi compartilhar com vocês. Agora, chega. Como todo dia 31 de dezembro, desde que estou em São Paulo, vou dar uma espiada na São Silvestre.