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A primeira noite de tranquilidade de Zurlini

Luiz Carlos Merten

03 Janeiro 2011 | 12h26

Este texto me saiu no calor da hora, escrito logo após saber da morte de Valerio Zurlini, em 1982. Quero acreditar que Carlos Reichenbach, que compartilhava comigo o amor pelo autor italiano, talvez gostasse de lê-lo.

Parece que foi ontem. Eleonora Rossi-Drago e Jean-Louis Trintignant dançavam de rosto colado ‘Temptation’, enquanto ao fundo se ouviam os ruídos da guerra. Era o primeiro sucesso de Valério Zurlini, ‘Verão Violento’, a revelar um verdadeiro talento de cineasta. Em seguida, vieram ‘A Moça com a Valise’ e ‘Dois Destinos’ – principalmente o último foi a confirmação de um talento excepcional, que o tempo não haveria de manter sempre no mesmo nível. A carreira tornou-se irregular, mas Zurlini ainda conseguia surpreender, como no melancólico ‘A Primeira Noite de Tranquilidade’. Por isso, causa tristeza a morte do cineasta, vítima de hemorragia intestinal. O cinema deve a Zurlini muitos bons momentos.

         Zurlini foi uma estrela solitária no cinema italiano de 20 anos atrás, sua melhor fases. Não se identificava, no plano  formal, com os três grandes (Visconti, Antonioni, Fellini) e também não tinha muito a ver com os jovens que iam se revelando (Pasolini, Bertolucci). Se houve um tema na obra desse cineasta tão intimista foi o conflito entre a fragilidade de suas figuras e a violência do mundo, que ele filmou de forma a colocar o público diante de verdades sociais. Uma mulher descobre o amor e a sexualidade contra o pano de fundo da guerra em ‘Verão Violento’ e o que o filme discute é o conflito entre o instituto e a repressão da vida burguesa. Em ‘Dois Destinos’, temos uma crônica familiar de tristeza irreparável, adaptada do romance de Vasco Pratolini, focalizando dois irmãos, um forte, outro fraco: novamente o que interessa, paralelamente à pintura dos estados de alma, é a reflexão sobre o social, a Itália no imediato após-guerra. E em ‘A Primeira Noite de Tranquilidade’, é a reflexão sobre a destruição e a decadência de uma família: Alain Delon é o professor que vem das colônias ultramarinas para o derradeiro ato de violência no continente.

         Em ‘Dois Destinos’, havia uma belíssima pesquisa de cor e sequências que o tempo não consegue apagar da memória do público: as cenas com a avó, interpretada por Silvie, atriz que seria a seguir  ‘A Velha Dama Indigna’. Também permanecem na memória as belas cenas de ‘Verão Violento’ e ‘A Primeira Noite’. Nos dois, o cenário é o mesmo: Rimini, cidade à beira do mar Adriático, a mesma dos filmes de Federico Fellini. Mas enquanto em ‘Verão Violento’ (e também em ‘A Moça com a Valise’) temos Rimini no verão, em ‘A Primeira Noite’ temos a praia no inverno, o mar violento de ressaca, expressão perfeita para os conflitos entre os personagens que olham a morte com a mesma dubiedade e fascinação de Alain Delon. No inédito ‘O Deserto dos Tártaros’, Zurlini dirigiu sua câmara para o passado colonial italiano, mostrando as reações de soldados num forte sitiado em pleno deserto. Para ele, o que interessava era flagrar o homem diante da morte, que o professor Delon definia como “a primeira noite de tranqüilidade”. Zurlini teve agora também a sua noite de tranqüilidade, mas na memória do espectador permanece o talento romântico e tragicamente lúcido de filmes tão bonitos quanto ‘Verão Violento’ e ‘Dois Destinos’.