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A primeira instância da vida

Luiz Carlos Merten

28 Julho 2010 | 09h08

Estou no mailing e recebo regularmente a ‘Revista da USP’. Confesso que, na maioria das vezes, a ignoro, por um parti-pris que talvez seja tolo, mas é o critério jornalístico. Não tenho muita paciência com o meio acadêmico e sua linguagem. Agora mesmo, recebi a revista do trimestre junho/julho/agosto, dedicada à cibercultura.  Como o assunto me interessa, fui ao índice e logo após o editorial encontrei o primeiro texto, sobre transdisplinaridade e não conceito. Já estava desistindo, e fechando a revista, quando algo me fez insistir. Se há uma coisa que já aprendi é que tenho um sexto sentido. Não tenho maior interesse pela maioria dos jornais e revistas que me cercam, mas sei onde garimpar o que me atrai. Ou seja, sou macaco velho e sei ir às fontes originais. Havia, na ‘Revista da Usp’, aquele título intrigante – ‘A Sétima Instância da Morte’. Fui ver o que escrevia Aguinaldo José Gonçalves e o texto dele tem tudo a ver com um assunto que foi abordado aqui no blog. Escrevi que a homenagem a Bergman no Cineclube Belas Artes está fazendo o maior sucesso e que ‘O Sétimo Selo’ arrebentou. Aguinaldo, poeta, ensaista e professor de Semiologia Humana na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, poderia levar seu texto à Semana Bergman, em Faro, e daria uma bela lecture. Aguinaldo reflete sobre alguns aspectos da morte e o seu texto, como ele diz, poderia ser intitulado ‘A Primeira Instância da Vida’. Para aquecer a discussão sobre assunto tão tênue e tão ácido, o ensaísta recorre a obras de arte e, além da epígrafe emprestada de Manuel Bandeira, ele relaciona justamente ‘O Sétimo Selo’ com a novela ‘A Morte de Ivan Ilitch’, de Leon Tolstoi. Aguinaldo descobre as realizações cinematográficas do livro e chega à conclusão de que, não existindo essa linguagem na época em que Tolstoi escreveu ‘Ivan Ilitch’, o autor, na verdade, a intuiu, porque se vale de técnicas muito próximas daquilo que só a linguagem fílmica pode realizar. Em Bergman, ele destaca as alegorias fundamentais e chega à conclusão de que o cineasta faz uma das mais realistas e belas alegorizações da morte e de seus veios dialéticos na tensa relação com a vida. Para ilustrar a tese, Aguinaldo disseca cenas e conclui sua aproximação, do livro e do filme, por meio de um movimento dialético entre a solidão do sujeito diante da morte e a visão coletiva da mesma questão. Não sei se é possível ‘baixar’ textos da ‘Revista da UPS’, ou se o sujeito tem de ser assinante. Mas achei uma boa leitura e mais uma contribuição para essas homenagem a Bergman. ‘O Sétimo Selo’ já foi, mas ‘A Fonte da Donzela’ permanece e ainda virá ‘O Ovo da Serpente’.