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Cultura » A premiação, erros e acertos

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Luiz Carlos Merten

28 Maio 2007 | 07h34

PARIS – Não tive tempo ontem de postar mais nada, tal foi a correria para mandar as matérias sobre a premiação para o jornal. Fui jantar e aí já era mais de meia-noite e eu tinha de fazer mala, essas coisas. Meu vôo para Paris foi cedo, antes das 8, saindo de Nice. Levantei-me às 4h30 e estou meio sonado, mas, enfim, Paris é uma festa, como dizia o velho Hemingway, mesmo que hoje seja um dia feriado aqui na França – de Pentecostes. Não comentei o final do festival, que é o assunto de hoje na capa do Caderno 2. Já disse lá uma coisa que vou repetir aqui. Cannes, no seu 60º aniversário, consagrou uma cinematografia que já vinha se destacando. Quando foi que os romenos iniciaram sua nova onda? Nos últimos anos, A Morte do Sr. Lazarescu, de Cristu Puiu, venceu a seção Un Certain Regard de 2005 (e foi um dos melhores, senão o melhor filme daquele ano). No ano passado, A Leste de Budapeste, do Columboiu, venceu a Caméra D’Or, cujo júri eu integrava. Este ano, os romenos chegaram e não deixaram para ninguém. Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias, de Cristian Mungiu, ganhou a Palma de Ouro e o prêmio da crítica. California Dreamin’ (Endless), de outro Cristian, o Nemescu, ganhou, postumamente, Un Certain Regard. Todos são jovens, diretores na faixa dos 30/40 anos. Nemescu, que morreu num acidente de carro, no ano passado, tinha só 26 anos (ainda ia fazer 27). Ousado esteticamentge – às vezes seco, quase senmpre duro e sem firulas -, o cinema romeno dá um testemunho sobre a realidade social e política da Romênia pós-Ceausescu. O Sr. Lazarescu fazia uma via-crúcis hospitalar e a sanidade de uma sociedade se mede pela forma como ela assegura a saúde de seus cidadãos, diz Michael Moore em Sicko. Quatro Meses continua discutindo saúde, mas agora temas como moral e condições sociais tornam-se ainda mais importantes. Uma mulher – uma jovem – quer fazer um aborto, que tem de ser clandestino, porque a legislação proíbe a interrupção da gravidez. Uma amiga a acompanha. O que ocorre com as duas não está no gibi. Mungiu fez, talvez, o maior libelo pela legalização do aborto de todo o cinema. A ilegalidade projeta a dupla de protagonistas femininas num inferno e o diretor não poupa o espectador. Aos quatro meses e três semanas, o feto já está num estágio de grande desenvolvimento. O diretor não facilita a vida do espectador e filma, em primeiro plano, esse bebê quase inteiramente formado, no chão do banheiro, para ser lançado ao lixo. O plano é chocante. O filme não é só social. Carrega indagações profundas. Como fica a ética? Cristian Mungiu disse que há seis meses não tinha dinheiro para terminar seu filme. Queria que ele estivesse em Cannes, em qualquer seção do maior festival do mundo. Thierry Frémaux, que faz a seleção, colocou-o na competição. O filme era o favorito. Ganhou. Nem por isso o júri presidido por Stephen Frears fez a coisa certa. O outro favorito, The Edge of Heaven, do turco-alemão Fatih Akin, ganhou um prêmio de consolação – para o melhor roteiro. O melhor ator, Mathieu Amalric, de Le Scaphandre et le Papillon, foi esquecido em favor de um russo, Konstantin Lavronenko, que não vai entrar para a história por seu desempenho em Izgnanie (O Banimento). O júri deu o prêmio do 60º aniversário para Paranoid Park, de Gus Van Sant, consagrando um filme bom, é verdade, mas de um diretor muitas vezes supervalorizado. Esqueceu-se, e foi um crime, do russo que valia a pena – Alexander Sokúrov, que merecia este prêmio não só pelo retrospecto de sua carreira, mas também pelas excepcionais qualidades de Alexandra. Ainda há muito para falar sobre Cannes 2007 e sua premiação. Paro um pouco – é meio-dia e meia em Paris – e eu quero almoçar para ver um filme daqui a pouco. Assisti a uns 40 filmes em Cannes – os 20 e poucos da competição, mais alguns da Semana da Crítica, de Un Certain Regard e da Quinzena dos Realizadores, e muitos de Cannes Classics, que é uma seção na qual me amarro, pela possibilidade que oferece de se assistir a clássicos restaurados (e em presença dos diretores, quando ainda estão vivos). Ia fazer a brincadeirinha – 40 filmes em 12 dias não são nada. Estou doidinho para voltar ao cinema. Faz tempo que não vejo nada – desde ontem!