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Cultura » A poeira do tempo, por Angelopoulos

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Luiz Carlos Merten

12 Fevereiro 2009 | 12h34

BERLIM – Havia gostado muito de ‘Eleni – A Terra Que Chora’, exibido aqui mesmo em Berlim, em 2004. Cinco anos já! O filme inaugurava uma trilogia de Theo Angelopoulos sobre o mito grego de Helena, que o diretor usava para contar uma história de seu país. O novo Angelopoulos passou ontem à noite. Prossegue com a trilogia, contando agora a história de um diretor que quer contar a história de seus pais – a mãe chama-se Eleni -, só que essa história é um pouco a da Grécia (e da Europa) no século passado. Os personagens são esses velhos comunistas lançados ao exílio, em choque ou abandonados pelo ‘partido’. Uns vão parar em campos na Sibéria, outros fogem para Israel ou os EUA, onde os atinge a Guerra do Vietnã. A terra volta a chorar. Paisagens na neblina, estátuas caídas do camarada Stálin, todas as referências que estimulam o imaginário de Angelopoulos estão presentes. Como sempre, ele cria cenas magníficas – lentos travellings aos quais a música dá uma dimensão ora mágica, ora trágica. E Angelopoulos possui o segredo de filmar essas cenas de grupos, nas quais multidões realizam movimentos até mesmo caóticos, que terminam por se resolver num detalhe. Por exemplo, no anúncio da morte de Stálin, a multidão se dispersa, pessoas choram e, no final, fica só esse velho, filmado de cima e meio atarantado, num canto da tela. Podia ficar horas vendo o filme, mas desta vez as coisas não juntam e a própria beleza das cenas fica comprometida pela interpretação. Irène Jacob é linda e a maquiagem que a faz envelhecer me pareceu melhor do que a de Kate Winslett, em ‘O Leitor’. Mas achei Willem Dafoe excessivo, mesmo imaginando que ele, claro, tenha atuado assim por imposição do autor, não por alguma vontade própria. O cara me incomodou – muito! – e eu ficava pensando comigo – menos, menos… Esperava tanto do Angelopoulos. Mesmo assim, vou entrevistá-lo amanhã. Não se perde a oportunidade de falar com o grande diretor de ‘O Apicultor’ e ‘Paisagem na Neblina’. Eu, pelo menos, trato de não perder.