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A perdida Maria Sílvia

Luiz Carlos Merten

03 Agosto 2009 | 17h38

CANCUN – O post que venho tentando acrescentar refere-se a Maria Sílvia. Estava indo para o Rio, na terca-feira da semana passada, para uma visita a set, quando vi, acho que no Globo, no aviao, a notícia de que ela havia morrido no fium de semana. Maria Sílvia morreu de cancer. Tinha 64 anbos, um pouco mais do que eu. Nao era bela, nao era gostosa, tinha aquela cara “Meninos, eu vi tudo”, mas apesar disso, ou por isso, Maria Sílvia faz parte do meu imaginário. Ela fez novelas, filmou com Jabor, com Ruy Guerra, mas meu amor por ela decorre do seu trabalho com um diretor e, na verdade, de um filme. Deixem-me, como se diz, contextualizar. O Festival de Gramado comecou como extensao de uma semana do cinema brasileiro que P.F. Gastal havia criado com a Prefeitura de Gramado e o apoio da Cia. Caldas Júnior, que era, na época, início dos anos 70, a maior empresa jornalística do Rio Grande. Embora trabalhasse na Folha da Manha, eu nao era cria do Gastal e me mantinha ä margem. Meus primeiros Festivais dse Gramado foram, curiosamente, em anos ímpares – o primeiro, o terceiro e o quinto. Houve um episódio de demissao coletiva na Folha da Manha, no qual entrei, e fiquei fora do circuito de cinema um monte de anos. Só voltei a Gramado quando já estava em Sao Paulo, e no Estadao. Mas, lá nos 70, nao me lembro como nem por que, assisti a uma sessao da comissao de selecao do festival e o filme, Perdida, de Carlos Alberto Prates Correia, foi projetado no auditório da Assembléia. Tomei um choque. A história da interiorana prostituída pelo caminhoneiro me bateu com uma intensidade rara. Maria Sílvia fazia o papel e era maravilhosa. Depois, ela virou atriz fetiche do diretor e apareceu acho que em todos os filmes dele, Cabaret Mineiro, Noites do Sertao (adaptado de Buriti de Guimaraes Rosa) e Minas, Texas. Sempre gostei muito de Carlos Alberto Prates Correia e Maria Sílvia… Era um assombro. O filme teve problemas com a censura do regime militar. Quando estreou, foi numa cópia retalhada. Eu queria que Gramado comprasse a briga de mostrar Perdida na íntegra, desafiando os militares. Gramado, na verdade, levou algumas luitas contra a censura, nao só a dos militares, como a do próprio público conservador. Lembro-me do debate, que ainda ocorria na salinha do Hotel Serra Azul, após a projecao de Um Homem Célebre, que Miguel Faria Jr. adaptou de Machado de Assis. Walmor Chagas nao apenas aparecia nu como tinha uma cena forte de sexo. Uma espectadora protestou e eu me lembro de ter sido agressivo, até ofensivo contra a pobre mulher, em defesa do filme. Como já disse, nao estava mais na Folha da Manha quando Perdida poderia ter ido para Gramado, mas eu acho que o filme, no final, nem integrou a selecao, para evitar problemas. Eu trabalhava na Intermédio, uma editora que lancava uma revista de turismo, chamada Programa. Aproveitei a rubrica Serras Gaúchas e caí matando no festival, que se ocupava mais de promocao e turismo do que de cinema (e a revista era de turismo!). Conto a história nao para ofender quem quer que seja, mas por que foi desse jeito que a perdida Maria Sílvia entrou em minha vida. Fora de mercado, também fiquei muitos anos longe de Gramado, mas nao me surpreendia ver o glamour do tapete vermelho e a presenca de globais se tornar dominante. Até acho que as pessoas que faziam o evento amavam o cinema, mas era a vocacao turística da cidade que predominava. O episódio Perdida foi, para mim, fundamental. Nunca mais revi o film,e. Já houve momentos de me perguntar se ele será mesmo tao bom quanto parece na minha lembranca? Maria Sílvia, tenho certeza, era maravilhosa. Senti a morte dela como um de ente querido, mas me faltava o tempo para postar e, quando o fiz, no sábado, a técnica me falhou e, com a luz, se foi o comentário que agora recomponho. Em memória de Maria Sílvia, uma atriz mítica, para min, do cinema brasileiro.

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