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‘A Pequena Lili’

Luiz Carlos Merten

30 Julho 2009 | 11h22

(Fiz uma pesquisa rápida e transcrevo para vocês meu texto sobre ‘A Pequena Lili’, publicado no ‘Caderno 2’ quando o filme estreou, em março de 2005. Pode ser interessante para quem quiser (re)ver o filme no sábado, mas sugiro que o leiam depois. Sobre Claude Miller, quero só acrescentar que o encontrei, e entrevistei, algumas vezes. Em Cannes; em Paris; e no Rio, no ano passado, quando ele veio apresentar ‘Un Secret’, Um Segredo, no festival.)
É uma raridade – num mercado formatado para a produção de Hollywood, como o nacional, estréiam hoje dois filmes franceses. Um é Confidências muito
Íntimas, de Patrice Leconte (leia acima). O outro é A Pequena Lili, de
Claude Miller. Mais raro, ainda, é que ambos os cineastas são crias de
François Truffaut, cuja influência assumem. Leconte é truffautiano no tom. Miller, sem se referir especificamente a seu mestre, usa-o para criticar o que Truffaut representava – o espírito de reconciliação no cinema francês. Quando o ex-turco de Cahiers du Cinéma, o crítico que fustigava o chamado cinema francês de qualidade, morreu, em 1984, a França viveu verdadeira comoção. Truffaut havia virado uma unanimidade. Miller, agora, de alguma forma discute o que isso representa.
A Pequena Lili é A Gaivota, segundo Miller. A peça de Chekhov é uma das
obras-primas do teatro universal e, no cinema, foi adaptada por Sidney
Lumet, diretor que recebeu um Oscar especial, de carreira, da Academia de
Hollywood, na madrugada de segunda-feira. Lumet deu tratamento de época à sua Gaivota. Miller transpõe a dele para a França contemporânea – e para o meio do cinema. Nicole Garcia faz uma famosa estrela que passa férias numa casa de praia, na Bretanha. Acompanham-na o irmão, Simon; o filho, Julien, que quer ser cineasta; e o amante, Brice, que também é o diretor de seus filmes mais recentes. Julien, que tem uma relação difícil com a mãe, envolve-se com uma garota do local. Ela se chama Lili e quer ser atriz. Numa cena, Simon, que não é outro senão Sorin na peça, diz que detesta a vida no interior. “Não acontece nada.” Na verdade, o nada é tudo, para quem se dispuser a interpretar os signos de um mundo em convulsão, na sua aparente imobilidade, como era o da Rússia pré-revolucionária, retratado por Chekhov em suas criações magistrais.
Claude Miller ficou famoso pela complexidade psicológica de filmes como La Meilleure Façon de Marcher e Ladra e Sedutora (que realizou a partir de um roteiro de Truffaut). Menos prolífico do que Patrice Leconte, ele também é menos conhecido no País do que o diretor de Confidências muito Íntimas. A obra de Leconte foi quase toda lançada nos cinemas brasileiros. A de Miller só ocasionalmente aparece por aqui. Ele filmou A Pequena Lili em digital, dando à imagem uma textura que vai além da plasticidade para expressar algo mais – seu filme transita entre realidade e fantasia. No desfecho, Lili caminha para árvores que o espectador fica em dúvida se são verdadeiras ou não. Na seqüência, entram árvores cenográficas no palco, exatamente iguais.
O filme constrói-se em dois tempos. Prossegue na cidade, cinco anos depois. Mistura lirismo, drama psicológico e sátira política. Foi um risco que Miller assumiu – e no qual se saiu bem. O relato é desencadeado por meio de um vídeo que Julien gravou e mostra à mãe. Arkadina, da peça, chama-se Mado, como no filme de Claude Sautet, outro mestre dos sentimentos, com Romy Schneider. Lili é Nina. A sombra é a de Truffaut. Ao focalizar o mundo em convulsão do cinema, Miller não deixa de criticar os que tentam uma reconciliação entre as tendências estéticas (e industriais) em litígio. Truffaut fazia este papel, no seu tempo. Será A Pequena Lili um filme de ruptura para Claude Miller?