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Luiz Carlos Merten

09 Junho 2007 | 15h39

Ontem pela manhã tive meu fecundo encontro com Hector Babenco, passei pelo jornal, almocei e me toquei para um estúdio em Moema, onde Luiz Fernando Carvalho me concedeu o privilégio – foi um privilégio – de assistir à sua nova microssérie, A Pedra do Reino, que a Globo começa a exibir na terça, dia 12, culminando no sábado, 16, que é o dia em que se comemoram os 80 anos de Ariano Suassuna. Apenas dois jornalistas, um da Veja e eu, pelo Estado, assistram (assistimos) aos cinco capítlos. Aos demais, LFC mostrou três capítulos. Havia visto a releitura da Pedra feita por Antunes Filho. Gostei bastante, mas Antunes buscava uma simplificação, um minimalismo na sua abordagem do romance caudaloso. LFC é barroco, é exuberante. Conversamos hoje de manhã. Quaderna, o personagem principal, é considerado um dos arquétipos da identidade brasileira. Costuma ser comparado, apesar das diferenças, a Policarpo Quaresma e a Macunaíma. Perguntei a LFC quem era o Quaderna dele. Me respondeu que é o homem comum brasileiro, que não perde a capacidade de sonhar, porque se perdesse não teria coragem de pegar quatro ônibus todo dia para ir e voltar do trabalho, ganhando pouco e sofrendo todo tipo de pressão. Disse que concordo, em termos. Quaresma quer ser o gênio da raça e herdeiro do trono do Brasil. Atinge seu objetivo porque LFC faz dele um artista, um rapsodo, que no final ganha a consagração da academia, como ocorreu com o próprio Suassuna. A Pedra tem muito a ver com a vida de Suassuna – a perda do pai -, assim como a perda da mãe, quando ele tinha apenas 4 anos, é uma das coisas que aproximam LFC do escritor. Devo ter sido a única pessoa que não morreu de amores por Lavoura Arcaica. Vi muita coisa em comum entre o filme do LFC e Bicho de Sete Cabeças – a figura do pai autoritário, o teatro da família em torno da mesa. Bicho me tocou mais. José Carlos Avellar sempre me dizia, como se fosse um defeito, que o Bicho tem pecados juvenis de cinema. Mas é por isso que eu gosto! O que para os outros pode ser defeito para mim é a qualidade. Havia, em Lavoura, um pedantismo que me incomodava. Mas LFC é grande. O que ele faz na TV brasileira não tem antecedentes – nem naquela experiência da turma de esquerda na Globo, nos anos 70, quando o Globo Repórter abrigava o cinema que João Batista de Andrade e Eduardo Coutinho não conseguiam fazer por causa da censura. A Pedra abre um projeto novo de LFC, Quadrante, formado por quatro adatações por meio das quais ele quer refletir sobre o Brasil contemporâneo, sobre a nossa identidade. Depois de Suassuna virão Machado de Assis (Capitu), o escritor gaúcho Sérgio Faracao (Dançar Tango em Porto Alegre – preparem-se) e Milton Hatum (Dois Irmãos). LFC abre um ciclo – ambicioso, como ele costuma ser, e reflexivo – e fecha outro, o da discussão sobre o teatro, que passa por Maria para chegar ao barroco da Pedra. Algumas cenas já nascem antológicas, para fazer parte da história da TV. LFC sabe que não faz cinema nem TV nem um híbrido dos dois. Faz outra coisa, uma terceira via para o audiovisual. Seu trabaslho é permeado de referências a Pasolini, a Visconti e a Glauber. Visconti é seu mestre, mas LFC, mesmo solicitado, nunca se atreveu a dirigir ópera. Quem sabe agora? Após o teatro de Maria e da Pedra, a ópera. Machado, afinal de contas, diz que a vida é uma ópera, em Dom Casmurro. Para LFC, o importante é captar a diversidade do linguajar brasileiro. Sair de Suassuna para Machado e para Faraco e Hatum. Pasolini tinha isso, e não apenas na trilogia da vida, que LFC cita por meio de um certo dossel. A citação a Visconti… São duas e uma delas se faz por meio da música de Franz Mahler, que o mestre utilizou em Morte em Veneza. E Glauber? Como não pensar nele, na cena que vocês vão ver, em que Quaderna desfralda a bandeira e grita, no alto da pedra, que quem não for brasileiro deve ir para os EUA? Grandes cenas, sim, mas que estão ali para ensejar uma discussão política como raras vezes se viu na TV brasileira. E não é que ele conseguiu, de novo?