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Luiz Carlos Merten

19 Maio 2008 | 12h46

CANNES – E a Cláudia, afinal, talvez tenha razão. Me baixou de novo a síndrome de, como ela diz, Peter Pan. Vivi há pouco outro momento de rara emoção aqui em Cannes. Freqüento este festival desde 1992, assisti já a muitas homenagens, incluindo a entrega da Palma das Palmas em 1995 a Ingmar Bergman, votado por todos os vencedores do prêmio como aquele autor que os júris, ignominiosamente, haviam esquecido. Mas Bergman não veio à Croisette recebeu o prêmio. Alegando questões de saúde, ele enviou Liv Ullman para representá-lo. Foi bonito, mas nada que se compare ao tributo a Manoel de Oliveira. O grande Clint Eastwood estava na platéia e a assessoria de imprensa anunciou que seria ele a entregar a Palma de Ouro especial com que Cannes homenageou Oliveira em seu centenário. No final, foi Michel Piccoli, um dos atores-fetiches do cineasta português, quem fez a ‘remise’ (a entrega). Ela foi precedida por um curta de 9 minutos realizado pelo próprio presidente do festival, Gilles Jacob – ‘Um Dia na Vida de Manoel’. Logo na abertura, Oliveira conta que certa vez, aqui em Cannes, recebeu um cartão apócrifo dizendo que cinema é movimento, não uma sucessão de fotos. Seria uma crítica ao seu estilo, mas Oliveira diz que há uma diferença entre fotos fixas, stills (como ele estava sendo acusado de produzir) e os planos lentos e longos, quase sem movimentação de câmera, que gosta de fazer. Os planos são fixos, mas existe muito movimento dentro deles, e este movimento (quase) sempre passa pela palavra, pelo dinamismo dos diálogos. Oliveira revela que aprendeu a ética e a estética do cinema com Charles Chaplin e Alfred Hitchcock. A estes nomes acrescentou um terceiro, o de Luís Buñuel. Foi um belo momentro para a história deste festival. Manoel de Oliveira, aplaudido de pé – por Clint, o xerife de Hollywood, mesmo que fosse por gentileza -, resumiu sua experiência numa frase que me fez chorar. “Cresci ao longo do século do cinema, e o cinema me fez crescer’. Não tenho cem anos, e nem sei se gostaria de chegar tão longe – embora se fosse com o entusiasmo e a juventude de Manoel de Oliveira, tudo bem. Mas eu vivi parte deste século do cinema – vivo agora outro século -, e também cresço, a cada dia, com ele. Me lembrei dos amigos que também amavam o cinema e se foram – Tuio Becker, Romeu Grimaldi, Luís César Cozzati. Me lembrei do decano da crítica gaúcha, Paulo Fontoura Gastal, o Calvero, e de Jefferson Barros. Permitam-me a frase de efeito. Brasileiros, sim, e com orgulho, mas a nossa pátria – acho que poderia falar por todos – é o cinema.