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A parceria Brecht/Lang

Luiz Carlos Merten

29 Novembro 2010 | 11h11

Alguém (Mauro Brider?) me pediu que falasse alguma coisa sobre a caixa de Bertolt Brecht lançada pelas Versátil e, principalmente, sobre a parceria do dramaturgo com Fritz Lang em ‘Os Carrascos também Morrem’. No livro com a entrevista que deu a Peter Bogdanovich – ‘Fritz Lang na América’ –, o grande diretor orgulha-se por haver levado Brecht, fugitivo do nazismo, para Hollywood e por o haver imposto (um comunista de carteirinha!) à comunidade cinematográfica. Mas a colaboração não foi pacífica e há controvérsia sobre quão brechtiano o filme, afinal, é. A turma de Brecht quer ver a marca do dramaturgo e ela transparece, por exemplo, nos poemas e cantorias, que não representam o melhor do filme. O melhor é mesmo ‘langiano’, sorry. ‘Os Carrascos’ inspira-se num fato ocorrido com a Resistência ao nazismo na antiga Checoslováquia. O ataque a um dirigente local nazista desencadeia a caçada ao responsável, ou responsáveis. A resistência arma para que um notório criminoso, e simpatizante nazista, seja responsabilizado. Um policial percebe a manobra e o relato de ação trata da corrida de ambos os lados – a Resistência, em busca de provas para incriminar o bode expiatório, o policial, para desmascarar a armação. Digamos que o conceito não é estranho a Brecht – o homem errado, a questão ética de acusar um inocente culpado de outros crimes –, mas a essência da caçada é de Lang. Nos filmes da fase expressionista alemã, Lang gostava de mostrar seus heróis em luta contra o destino trágico. Em Hollywood, os códigos de ação terminaram por dar um rosto, ou uma forma, a esse ‘destino’ – a polícia, o crime, aqui a Resistência. Em filmes como ‘M, o Vampiro de Dusseldorf’, sua obra-prima, e ‘Man Hunt’, O Homem Que Quis Matar Hitler, Lang promove a simpatia do espectador pelo assassino, mesmo que Peter Lorre mate crianças (meninas). O grito final dele, pedindo ajuda, é um dos momentos viscerais do cinema – transmite uma angústia, uma dor, que raros filmes conseguem expressar (e o cara seria, ou é, um criminoso abjeto, cuja humanidade percebemos). Em ‘Os Carrascos’, Lang não tem simpatia nenhuma pelo criminoso vítima de uma ‘armadilha’. A questão ética, de resto, extrapola o cinema. Lang contou a Bogdanovich que o ‘Código’ (Hays) não queria dar sua aprovação ao filme justamente porque sua premissa se baseia numa notória mentira. Lang conta que nunca teve tanta dificuldade para convencer um censor de que o filme, como parte do esforço de guerra – em 1943 –, precisava ser liberado. Além dos problemas específicos que enfrentou com Brecht – Lang simplesmente tentava convencê-lo de que muita coisa que ele gostaria de ter no filme seria incompreensível para o público dos EUA –, houve outro detalhe. Como Brecht só falava alemão, Lang providenciou um corroteirista bilíngue para trabalhar com ele. John Moxey era seu nome e ele entrou no sindicato da categoria com um pedido para que apenas seu nome aparecesse nos créditos. Lang foi ao Guild, provando que cenas que Moxey reivindicava só poderiam ter sido escritas por Brecht. O responsável pela petição foi mais difícil de convencer que o censor do ‘Código’. Ele fez ver a Lang que Brecht voltaria para a Alemanha, mas Moxey ia ficar nos EUA, na indústria, e o crédito seria mais importante para ele. O curioso é que a mesma história de ‘Os Carrascos’ foi contada por outro europeu – Douglas Sirk – em ‘O Carrasco de Hitler’ (Hitler’s Madman), acho que no mesmo ano, ou no seguinte. Não creio que sejam um grande Lang e, menos ainda, um grande Sirk, mas ‘Os Carrascos’não deixa de ser atraente. Parece simples, mas sua complexidade emocional é grande. Justamente por essa espécie de suspense moral – não revi o filme – pergunto-me se Lang, no limite, não terminou por sacrificar o tal distanciamento crítico brechtiano? O cinema, vale acrescentar, é uma mídia avassaladora. Não se presta ao distanciamento, o que não significa que este seja impossível. Jean-Luc Godard e Rainer Werner Fassbinder tentaram, mas muitas vezes olhar para a câmera e falar diretamente com o espectador são recursos fáceis demais. Prefiro as rupturas de tom e a montagem sincopada de Godard em certos filmes (‘Uma Mulher É Uma Mulher’ e ‘Viver a Vida’), mas, pessoalmente, acho que o capítulo ‘distanciamento crítico no cinema’ é representado, melhor do que ninguém, por Joseph Losey. Ele trabalhou com Brecht no teatro, mas falhou ao tentar concretizar o projeto de toda uma vida. Losey é grande, genial, em muitos filmes, exceto em ‘Galileo’, que perseguiu durante décadas, desde que, em 1947, dirigira a peça de Brecht no teatro dos EUA. Em 1974, ele finalmente fez seu filme, mas ‘Galileo’, com Topol e John Gielgud, não obteve, nem entre ‘loseynianos’ de carteirinha (existe o adjetivo?), míseros 10% da repercussão com que sonhava.

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