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Luiz Carlos Merten

24 Junho 2007 | 13h48

Acho que vou desistir de fazer correções. Vocês já repararam que, quando corrijo, sempre termino por acrescentar um erro ao já existente? E, depois, vocês já me corrigem, no que fazem muito bem. Enfim, vamos voltar a Woody Allen. Assisti hoje de manhã a um pedaço de A Outra, a parte final. É um daqueles Woody Allens estranhos, mais Bergman que Woody. E, pelo menos a parte que revi, não é nem um pouco engraçado. É drama mesmo. Em compensação, adorei a Gena Rowlands. Toda a cena do rompimento dela com Ian Holm é de uma precisão! Nenhum excesso, a emoção justa, a fala exata. Quando ele tenta justificar o adultério dizendo que não tem importância e ela diz que tem pena dele, acrescentando que são dois solitários, achei de uma profundidade sem par. E não é assim que as histórias de amor terminam? Quando as pessoas descobrem que estão mascarando sua solidão a dois? De maneira geral, e nem me perguntem por que, eu tendo a subestimar Woody Allen. Gosto dos filmes dele, concordo que três ou quatro são geniais, mas nunca penso em Woody Allen, nem em seus filmes, como meus favoritos. É uma reserva de inteligência e qualidade com a qual conto, mas não uma paixão. É a mesma coisa com Bob Fosse. Outro dia falei no Cabaret e choveram comentários. Sei que o filme é tudo aquilo – fassbinderiano, inclusive. Mas não é um dos meus favoritos. Tem alguma coisa que me trava. Até acho que sei o que é, mas é tão íntimo, tão ‘psicanalítico’, que não vale a pena falar. É bom quando passa o tempo, fazia muito que não revia A Outra e, de cara, fui confrontado com a emoção contida do filme. Allen havia feito antes Interiores, que eu acho que é o filme dele mais parecido com A Outra. Interiores é do fim dos anos 70, logo após Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa). Logo ele iria acabar com Diane Keaton, mas ela permaneceu amiga e atriz, uma permanente inspiração. A Outra foi feito após Setembro, outro filme soturno, e ambos surgiram na seqüência de uma série muito importante. Zelig, Rosa Púrpura, Hannah e Suas Irmãs, A Era do Rádio, todos com Mia Farrow. O que estava ocorrendo em 1987/88, para o Allen fazer aqueles dois filmes, que são imperfeitos, mas belos? A outra, pelo menos, é. Veio depois a obra-prima sombria da carreira dele, Crimes e Pecados, seguida de uma comédia radiosa, Simplesmente Alice, e foi o fim com Mia Farrow. Há tempos Woody Allen não faz um filme sombrio assim. Parece estar mais tranqüilo na fase Soon-Yi, que deve tê-lo preenchido como homem. Será que deliro? por que querer psicanalizar o Woody Allen,vendo vida e obra como espelhos uma das outra? Porque ele próprio dá tanta importância à psicanálise que termina por autorizar esses vôos. Mas, enfim, tudo isso é para dizer que gostei de rever A Outra. Gostei até mais de rever Gena Rowlands, é verdade.

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