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A outra garota do lado errado do trem. Eu, Tonya!

Luiz Carlos Merten

09 Fevereiro 2018 | 08h54

Fui ver Artista do Desastre e confesso que não vi maior interesse no filme nem na interpretação de James Franco. Nada que o velho Ed Wood e as versões mais recentes de Florence não me tenham proposto com mais inteligência, ou encanto. Privado de humanidade, patetismo, o personagem é um porre, meio zumbi. Em compensação, tomei um choque vendo Eu, Tonya e estou seriamente inclinado a pensar que se trata do’meu’ favorito entre os indicados deste ano. Encontrei-me com Helena Ignez e Cristiano Burlan ontem à tarde para falarmos sobre Antes do Fim, que estreia na próxima quinta, 15, e ela riu quando lhe disse que Eu, Tonya poderia ser o filme que ela faria em Hollywood. Uma história nada correta, sobre outra garota do lado errado do trem – como Lady Bird, mas a versão de Greta Gerwig, da qual gostei, agora me parece correta demais. Confesso que não tinha registro do diretor Craig Gillespie. Fez Horas Decisivas, sobre um resgate no mar borrascoso, com Chris Pine e Casey Affleck, que não vi – estaria viajando? – e agora propõe essa fábula de amor e ódio. Entre mãe e filha, homem e mulher, a artista (que Tonya era) e o público. Eu, Tonya tem tudo – romance, sacrifício, criminalidade, violência, pobreza na ‘América’. É o filme que, sem nenhum alarde, para mim, mais reflete o eleitor de Donald Trump. Uma história sem segunda chance, ou na qual o que seria a segunda chance dá errada. Privada de sua vida – a patinação – Tonya sobe ao ringue e vira boxeadora. Toma e dá porrada. Rebenta-se e encara a câmera, nós, o público, com raiva. Os EUA amam ter alguém para amar, mas gostam ainda mais de ter alguém para odiar. Entrevistei Margot Robbie pela Arlequina, em Nova York. One a one. Despedimo-nos com um beijinho. Good Luck, girl. Take care. Quando lhe falei da boxeadora, Helena Ignez me disse que será seu próximo filme. Depois da garota do calendário, faquirezas e boxeadoras. Gostei muito de Margot, de Allison Janney, de Sebastian Stan, que não se controla e dá porrada na mulher que ama. Sebastian é o Soldado Universal, na série do Capitão América, que eu amo, por causa dele, o personagem complexo – trágico – da trama. Eu, Tonya estreia na semana que vem, mas terá pré-estreias nesse fim de semana (acho). Melhor que Lady Bird, que A Forma da Água, que é melhor que Três Anúncios para Um Crime. E, claro, temos as lições, nada didáticas, de democracia e empoderamento feminino de Steven Spielberg em The Post – A Guerra Secreta e o tema ‘grego’, a ligação do homem mais velho com o garoto, do italiano Luca Guadagnino em Me Chame pelo Seu Nome. Agora, tenho de fazer uma coisa que está me dilacerando. Daqui a pouco, eu conto.