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Luiz Carlos Merten

01 Março 2010 | 23h47

Não sei se vocês desertaram do blog, porque ultimamente não tenho tido comentários para validar. Os blogs do ‘Estadão’ estão mudando e eu preciso ‘migrar’, como se diz, para que os comentários de vocês entrem automaticamente, sem necessidade de validação. Dito isso, quero voltar a ‘How the West Was Won’, A Conquista do Oeste, a que assisti em Paris, numa cópia plana. O Cinerama foi um dos formatos inventados por Hollywood para enfrentar a concorrência da televisão, nos anos 1950. Os filmes em Cinerama eram rodados com três câmeras distintas, embora com a particularidade de só possuírem um visor, que controlava a sincronia das três imagens contíguas e que eram projetadas sobre uma tela curva (nos extremos), a partir de três projetores diferentes. Tal processo era obviamente complicado e remetia à tela tríplice que Abel Gance criara no cinema silencioso para o seu ‘Napoleão’. O problema com as cópias planas dos filmes produzidos originalmente em Cinerama é que ficam muito evidentes os pontos de junção das três telas. Isso incomoda bastante em ‘A Conquista do Oeste’, mas confesso que gostei de ter (re)visto o filme. Embora irregular, a produção de 1962 é interessante como representação do nascimento de uma nação, mesmo que a conquista do Oeste pouco ou nada tenha a ver com a realidade e seja muito mais uma afirmação daquilo que o proprio cinema havia mostrado antes. Já disse que o episódio ‘fordiano’, da Guerra Civil, é de longe o melhor, construído sobre uma ideia do ‘tempo’. Zeb (George Peppard) parte para a guerra e, ao retormnar, encontra túmulos, não gente. Há algo de mágico na luminosidade da cena da partida, quando ele avança por aquela aléia de árvores e olha para trás para lançar um último olhar sobre um mundo que logo será colocado em xeque. O conceito geral é bonito. As histórias das duas irmãs, Eve e Lily, Carroll Baker e Debbie Reynolds, são conflitantes e complementares. Uma se liga à terra e cria raízes, sendo a Penélope da odisséia de mestre Ford. A outra é uma aventureira que expressa a mobilidade ontológica e social dos construtores da identidade nacional. Desde que (re)vi o filme, na sexta, estou na cabeça com o tema cantado por Lily/Debbie – ‘home in the meadows’. E há aquela conversa antológica entre os generais Sherman e Grant, quando John Wayne – tinha de ser ele – filosofa sobre a guerra e o dever do soldado, num cenário de estúdio que remete a outro clássico, anterior, de Ford, ‘O Homem Que Matou o Facínora’. Até por causa do título, ‘A Conquista do Oeste’, o tom do filme é épico, com muitas cenas espetaculares que exploram as possibilidades do formato Cinerama. O episódio de Ford é a exceção por ser rigorosamente intimista. O mestre não filmou nem as cenas de combates da Guerra Civil. São cenas de arquivo de outros filmes produzidos pela Metro (‘A Árvore da Vida’, de Edward Dmytryk). Só para concluir o assunto ‘Cinerama’. O formato foi explorado principalmente em documentários ou filmes turísticos, de paisagens, que os críticos chamavam de ‘travelogues’. Um raro exercício de ficção, antes de ‘A Conquista do Oeste’, foi ‘O Mundo Maravilhoso dos Irmãos Grimm, de Henry Levin, no mesmo ano (1962). ‘A Conquista’ costuma ser tratado a pontapés pelos críticos, como colonialista, reacionário etc. Mesmo me arriscando a levar pedradas, quero dizer que os 25 minutos do episódio de John Ford são antológicos, a prova de que um grande diretor consegue pegar uma encomenda e dar-lhe uma identidade, uma assinatura. Tentem ver e depois me digam se não.

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