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A obra-prima doente de Visconti

Luiz Carlos Merten

31 Março 2018 | 10h18

Fui (re)ver ontem Ludwig A Paixão de Um Rei na respescagem da retrospectiva de Luchino Visconti. E já tenho os ingressos para ver hoje, às 19 h, Violência e Paixão e amanhã, às 21, Senso/Sedução da Carne. Vai se despedindo o evento que permitiu ao cinéfilo paulistano revisar a obra de um dos grandes artistas do cinema. Por falar nisso, recebi o comunicado de Cannes Classics, anunciando que, este ano, o festival homenageia o cinquentenário de 2001, Uma Odisseia no Espaço. Não se trata só de mostrar o clássico restaurado. Cannes está preparando uma extensa programação. Pela primeira vez no tapete vermelho do maior festival do mundo, Christopher Nolan – ele! – vai apresentar a sessão especial e depois, numa master class, falar sobre a importância de certos preceitos kubrickianos – espaço, música, montagem – sobre o seu trabalho. Só isso já valeria a ida a Cannes, mas duvido que o festival vá esquecer Maio de 68, quando foi interrompido por Polanski, Godard e Truffaut em solidariedade ao movimento dos estudantes em Paris. Ludwig! em 27 de julho de 1972, Visconti trabalhava na montagem do filme quando sofreu a trombose. Estava trabalhando numa edição de 4 horas, e havia chegado a sugerir ao produtor que o filme passasse com intervalo, em duas sessões de duas horas. O produtor não quis saber e se aproveitou da incapacitação física do cineasta pçara cortar o filme. Reduziu- para 3 horas, depois para 2. O filme ficou incompreensível, ou quase. Voltopu à versão de 3, que foi lançada nos cinemas. Fracasso total, de público e crítica. Visconti morreu em 1976 e, em 1978, com a falência da empresa produtora, amigos – Suso Cecchi D’Amico, Enrico Medioli, a irmã, Uberta, de Luchino – conseguiram comprar os direitos. Remontaram Ludwig, quer foi relançado em Paris e Roma em 1983. Dessa vez, a recepção foi triunfal, pelo menos em termos de prestígio. Rever as 4 horas de Ludwig pode ser penoso. O filme é que François Truffaut chamaria de ‘obra-prima doente’, expressão que criou para definir Marnie, as Confissões de Uma Ladra, de seu querido Alfred Hitchcock. Ludwig é penoso porque apresenta, como raras vezes se viu no cinema, a demolição de um personagem, sua derrocada física e moral. A Cosima, Richard Wagner diz que ele é o último lunático de uma família de lunáticos. Ludwig abre-se com o espetáculo da coroação. Nos bastidores, Ludwig diz a seu padre confessor que quer governar para a arte. O padre pede que ele seja humilde. Ludwig, comno rei, será desmesurado. Patrocina Wagner e suas óperas, constrói castelos inabitados. E deseja os homens, os corpos dos homens. Sua prima Elizabeth, Sissi, observa, amargamente, que os reis “como nós não têm história. Somos apenas fac hadas. Somos esquecidos pela História, a menos que alguém nos dê a mínima importância nos assassinando.” Ludwig foi apeado do poder num complô, declarado louco. Visconti tinha um final alternativo, com base em documentos, segundo os quais ele foi asssassinado e o suicídio por afogamento, forjado. As roupas do rei, que desapareceram, mostrariam os furos de balas – os tiros que recebeu. Wagner, no filme, é um monstro. Cosima, sua amante e, depois, mulher, assemelha-se a uma ave de rapina. E toda essa tragédia é filmada reconstituindo a decadência e destruição de Ludwig por meio da deterioração de sua arcada dentária. No início, como lhe diz Sissi, por quem ele é platonicamente apaixonado, Helmut Berger/Ludwig é o rei mais belo da Europa. Os dentes apodrecem, as bochechas caem, no final ele é uma sombra de si mesmo, tapando o rosto com os dedos para que apareçam somente os olhos, janelas de sua alma atormentada. É interessante pensar como um filme tão complexo terminou sendo gestado rapidamente. Visconti pensava em Ludwig desde que, pesquisando para Os Deuses Malditos, visitou seus castelos na Bavária. Seu plano era emenda Morte em Veneza com a sonhada adaptação de Em Busca do Tempo Perdido. Seu Proust teria um perfume de Balzac – Sodoma e Gomorra. No final, sem recursos, produtor nem elenco para o projeto monumental, fez Ludwig a toque de caixa – para os padrões viscontianos – para não ficar parado. Estafou-se, e traído pelo próprio corpo teve a trombose. Os anos finais foram febris – filmes, peças. Suso me contou como os amigos se mobilizavam para mantê-lo trabalhando. Se parasse, seria a morte, fatalmente. Depois de Ludwig, Visconti fez Violência e Paixão, Gruppo di Famiglia in Un Interno, que vou (re)ver esta noite. Não um filme sobre um velho, o Professor interpretado por Burt Lancaster, mas o filme de um grande artista sobre a velhice. Li isso em alguma parte, e achei a definição tão bonita que guardei. Nenhum produtor queria bancar Violência e Paixão. Burt, eterno Principe Salinas, deu seu aval – se o pior ocorresse, e Visconti faltasse, ele próprio terminaria o filme. Não foi preciso, mas foram os amigos que concluíram, depois, o D’Annunzio. Visconti morreu durante a montagem de O Inocente, sem chegar a completá-la. Essa retrospectiva me tem feito repensar/revisar minha vida. Esta noite, lá vou eu para as emoções de La Mia Solitudine Sei Tu, que integra, com Mozart, a trilha de Violência e Paixão.