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Luiz Carlos Merten

07 Julho 2008 | 19h19

Já que o Leandro gostou da história dos filmes perdidos de Fritz Lang, conto para ele a de ‘Na Mira da Morte’ (Targets), o filme de estréia de Peter Bogdanovich, em 1968. Ex-crítico, Bogdanovich fez três filmes de sucesso – emendou ‘Targets’ com mais duas ficções, ‘A Última Sessão de Cinema’ e ‘Lua de Papel’, e no meio fez o documentário ‘Directed by John Ford’ -, antes de iniciar uma das quedas mais vertiginosas da história de Hollywood. O problema foi simples. Bogdanovich se apaixonou por Cybill Shepherd, sua co-estrela em ‘The Last Picture Show’. Foram casados durante sete anos, durante os quais ele fez de tudo para promover a moça, mas o que conseguiu foi enterrar a própria carreira. Ela própria, que foi de mal a pior nos filmes dele – ‘Daisy Miller’, adaptado de Henry James, e o horroroso musical ‘Amor, Eterno Amor’ -, teve uma segunda chance na TV, ao fazer o seriado ‘A Gata e o Rato’, com o jovem Bruce Willis. O casamento terminou em amargura e ressentimento. Bogdanovich disse mais tarde que entendia que as pessoas o odiassem. Diretor de sucesso, milionário e casado com uma mulher gostoséssima. Como ‘não’ odiá-lo, já que representava o próprio sonho americano? Como crítico, ele ficou famoso ao afirmar que todos os bons filmes já tinham sido feitos – em Hollywood, no passado, era o que queria dizer. Ligado ao produtor e diretor Roger Corman, ele ganhou a chance de fazer ‘Targets’ a troco de nada. Bogdanovich dispôs de um par de dias com Boris Karloff e um tempo reduzido para desenvolver um projeto utilizando imagens de ‘O Terror’, um dos muitos filmes que Corman havia feito em 1963 (este, com Karloff). Bogdanovich bolou a história do atirador que disparava contra os espectadores escondidos por trás da tela de um cinema de drive-in, daqueles a que as pessoas iam de carro. Na tela, passava justamente ‘O Terror’ e a tese de Bogdanovich era a de que o terror da realidade era mais asssustador do que o dos filmes – tese perfeita para o que ocorria nos EUA, na época, atolados em assassinatos políticos (dos Kennedys e de Martin Luther King) e na violência racial que ensangüentava as ruas. A idéia do atirador atrás da tela foi, realmente, um toque de gênio. Usar as imagens de ‘O Terror’ também foi brilhante. Corman era o maior unha de fome. Ele tinha o lendário Boris Karloff sob contrato, por mais quatro ou cinco dias, e filmou ‘O Terror’ enquanto os cenários de ‘O Corvo’, seu filme precedente com o ator, estavam sendo desmontados. Um mundo se desintegra – é o tema do castelo nos Balcãs no qual o sinistro Karloff se envolve em mortes misteriosas. E aí, Leandro, a história é legal, ou não? Roger Corman escreveu uma autobiografia na qual conta como nunca perdeu dinheiro fazendo filmes a toque de caixa. Sua série de adaptações de Edgar Allan Poe com Vincent Price lhe valeu prestígio e dinheiro, mas o melhor foi que Corman, além de produtor e diretor, foi também distribuidor. E sabem que filmes ele comprava para distribuir nos EUA? ‘Gritos e Sussurros’, de Ingmar Bergman, e ‘Amarcord’, do Fellini (que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro). Mais até do que pelos filmes – mas eu gosto de seus filmes de gângsteres, ‘Massacre de Chicago’ e ‘Os Cinco de Chicago’ – Corman foi fascinante como personagem de uma Hollywood que estava desaparecendo nos anos 60.