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Luiz Carlos Merten

07 Março 2010 | 22h31

Da série ‘Merten zapeando na TV…’ assisti hoje a um pedaço de ‘Minority Report – A Nova Lei’. Não pude ver mais, porque precisava sair, mas valeram aqueles 15 ou 20 minutos. Já contei aqui que ‘Cahiers du Cinéma’ escolheu ‘Guerra dos Mundos’ como um dos dez melhores filmes da década. Lembro-me que algumas pessoas reagiram indignadas e até viram no fato uma prova da decadência da revista francesa. Eu posso contestar quando ‘Cahiers’ escolhe ‘Mulholland Drive’, de David Lynch, como o filme da década passada, mas entendo perfeitamente a escolha da revista por Spielberg. Quem me lê aqui no blog sabe que Spielberg fez minha começa com a ‘trilogia’, que não sei se ele concebeu como tal, formada por ‘Terminal’, ‘Guerra dos Mundos’ e ‘Munique’. Mas antes disso ‘Cahiers’ já vinha numa história de amor com o cineasta. ‘Minority report’ e ‘Catch If You Can’ – nunca me lembro o título em português – foram muito bem recebidos por ‘Cahiers’. Assistindo hoje a um pedaço do filme com Tom Cruise logo me dei conta por quê. Assisti justamente ao trecho da perseguição de Cruise por Colin Farrell e à cena em que o policial fugitivo bate à porta da mulher que criou o sistema de justiça – o pré-crime – que ele supostamente deve defender, mas que agora o coloca na posição de suspeito. Tudo o que ela fala sobre a (in)falibilidade do sistema é espetacular e o filme foi feito em 2002, um ano após o ataque às torres gêmeas, que levou George W. Bush e sua gangue a subverterem os estatutos da lei na América. Não sou eu que o digo, irresponsavelmente. São juristas norte-americanos, que perceberam não apenas a guinada para a direita, mas se preocuparam legitimamente com o perfil conservador que Bush imprimiu à Suprema Corte dos EUA. Como os cargos são vitalícios e ele nomeou juízes relativamente jovens, a ideia era garantir a continuidade conservadora muito tempo após sua presidência, o que tem sido um peso para Barack Obama, mas deixa para lá. O interessante é que aquela discussão sobre a (in)Justiça tem tudo a ver com o ‘Catch Me’, o que me leva a crer que Spielberg, na sua dualidade cinema comercial/autoral, sempre foi muito mais ‘intelectual’, consciente e consequente, do que me pareceu na trilogia. Fiquei morrendo de  vontade de (re)ver ‘Minority Report’ inteiro. Como o filme vive passando na TV paga, creio que não será difícil. E existe a alternativa do DVD. Agora, chega. O Oscar está começando,. Vamos lá…