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A nova encrenca de Tarantino

Luiz Carlos Merten

22 Maio 2007 | 13h41

CANNES – Quentin Tarantino é sinônimo de polêmica aqui em Cannes. Me lembro de Pulp Fiction (Tempo de Violência), quando ganhou a Palma de Ouro de 1994. Houve uma polarização da crítica entre o filme de Tarantino e o russo, de Nikita Mikhalkov, O Sol Enganador. O pulp contra a grande literatura russa (por conta dos elementos chekhovianos no filme de Mikhalkov). Na época, fui mais Tarantino, mas não sei se estou disposto a repetir a dose. Perdi ontem a sessão de imprensa de Death Proof, o novo filme do diretor, que integra a competição. Preferi ver as versões restauradas de Kanal, de Andrzej Wajda, em presença do diretor, e de Hondo, de John Farrow, na homenagem ao centenário de John Wayne, em presença de Gretchen Wayne, nora do Duke (e viúva de seu filho Michael). Havia falado com Gretchen pelo telefone, antes de vir para Cannes. Apresentei-me no fim da sessão. Ela foi muito carinhosa. No meio daquele tumulto, me abraçou e me perguntou se o Duke não tinha razão. Era o filme em que ele se achava mais bonito (more gorgeous), ela disse. E Hondo passou na versão original, em 3-D. Genial! Na cena do ataque dos índios, as flechas saltavam da tela e pareciam voar na gente, na platéia. Mas, enfim, só vi o Tarantino agora de manhã. Metade da platéia aplaudiu freneticamente – e na coletiva não empregava outra definição que não ‘great’ (grande) para ele -; a outra metade vaiava e, desta vez, eu quase vaiei junto. Deve ser uma coisa geracional. Death Proof integra um projeto de Tarantino com Robert Rodriguez. Os dois resolveram recuperar os velhos programas duplos que, numa certa época, marcaram Hollywood, no apogeu da produção B. Cada um fez um filme para passar no mesmo programa. Para a exibição em Cannes, Tarantino aumentou a duração do filme dele. Divide-se em duas partes. Na primeira, Kurt Russell, no papel de um dublê, usa seu carro blindado para matar mulheres. Na segunda, o caçador vira caçado e outras mulheres se vingam. Tarantino adora mulheres decididas, de faca na bota, como se diz no Sul. Pense em Pam Grier (Jackie Brown), em Uma Thurman (Kill Bill). Confesso que me diverti em muitos momentos de Death Proof, mas no final tive aquela sensação de vazio. Está bem – é isso. Mas o que mais? Não tem. Kurt Russell, de qualquer maneira, está sensacional. Tarantino tem isso. Ele gosta desses astros decadentes. Resta saber se Death Proof vai fazer por Kurt Russell o que Pulp Fiction, Jackie Brown e Kill Bill fizeram por John Travolta, Pam Grier e David Carradine.

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