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A Noite do Caçador

Luiz Carlos Merten

06 Novembro 2007 | 17h14

Fui perguntar ao Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio, qual o título brasileiro de ‘De Battre Mon Coeur s’Est Arreté’, a que me referi no post sobre Romain Durys, e ele me retribuiu com outra pergunta e uma história que reproduzo aqui. A revista ‘Cahiers du Cinéma’ – deve ser na edição de novembro, que ainda não chegou ao Brasil – publica a lista dos 100 mais belos filmes de todos os tempos, de acordo com uma pesquisa recente realizada na França. Não sei muitos detalhes e o Zanin já colocou o assunto no blog dele, mas, enfim, o que o Zana me contou é que ‘Cidadão Kane’, sem surpresa, foi o número 1. A surpresa foi o número 2, apenas um voto atrás do clássico de Orson Welles – quem ficou no posto foi ‘O Mensageiro do Diabo’, único filme realizado pelo ator Charles Laughton (e que sempre foi um filme de culto na França). Vocês devem se lembrar do filme. Robert Mitchum faz o misto de pastor religioso e matador louco que tem as palavras ‘love’ (amor) e ‘hate’ (ódio) gravadas no dorso das duas mãos, que coloca lado a lado para expressar sua duplicidade. Ele persegue duas crianças para que elas lhe revelem o esconderijo de um tesouro. A griffithiana Lillian Gish vela pelo menino e pela menina. Magnificamente fotografado em preto-e-branco (por Stanley Cortez, um gênio da imagem), o filme é uma alegoria sobre a perda da inocência e a hipocrisia social, temas muito significativos em 1955, quando os EUA começavam a virar a página negra do macarthismo. O mais incrível é que ao falar, há pouco, sobre ‘O Espírito da Colméia’, juro que quase fiz a ponte com ‘O Mensageiro do Diabo’, que tem um clima muito parecido, igualmente poético e perturbador. Acho o máximo as cenas em que as crianças adormecem na canoa e descem o rio, num clima de sonho que se reflete nas imagens da floresta ao fundo. Sempre tive, para mim, que a floresta das sequóias do Hitchcock em ‘Vertigo’ (Um Corpo Que Cai), que é de 1958, e a outra floresta, a de Spielberg, em ‘E.T. – O Extra-Terrestre’, no começo dos anos 80, têm tudo a ver com aquela de Charles Laughton em seu único filme como diretor (chama-se ‘The Night of the Hunter’ no original). Laughton era um ogro, de tão feio, mas suas interpretações em ‘O Corcunda de Notre Dame’ (William Dieterle), ‘Testemunha de Acusação’ (Billy Wilder), ‘Spartacus’ (Stanley Kubrick) e ‘Tempestade sobre Washington’ (Otto Preminger) fazem dele um ícone do cinema. Feio como era, Laughton era um bissexual sedutor, dividindo-se entre a atriz Elsa Lanchester (que fez ‘A Noiva de Frankenstein’), união que, para mim, era um casamento de intelectos, porque o interesse do cara eram mesmo os garotos. Taí, Charles Laughton assinando o segundo mais belo filme de todos os tempos. Toda lista é sempre suscetível de crítica, mas que o filme dele é maravilhoso, ah, isso é.

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