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Cultura » A ninfômana frígida de Hollywood

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Luiz Carlos Merten

21 Julho 2009 | 00h17

Quase meia-noite e eu vou acrescentar um post rapidinho, só para que este dia não passe em branco. Tive 1001 problemas para resolver, textos para redigir e, no meio de tudo isso, fiz uma entrevista legal com Débora Bloch, sobre o novo filme de Heitor Dhalia, ‘À Deriva’. Não falamos apenas sobre o filme, mas também sobre novela, ‘Caminho das Índias’, e teatro. De volta para casa, acabo de assistir a ‘Pandora’, de Albert Lewin, que saiu em DVD. Lewin foi um dos personagens mais bizarros da história de Hollywood. Sua fama de esteta cultivado lhe valeu não poucos admiradores, graças especialmente à sua adaptação de ‘O Retrato de Dorian Gray’, filmado em preto e branco e com uma primorosa cena em cores, e também a ‘Pandora e o Holandês Voador’, Pandora and the Flying Dutchman, em que Ava Gardner está imperial na sua beleza. Fotografado por Jack Cardiff, ‘Pandora’ me pareceu irregular demais, alternando cenas belíssimas – e uma pesquisa pictural apurada – com momentos em que as escolhas de cor, cenografia e enquadramento apontam para o kitsch mais absoluto. Justamente, o absoluto – há um tema no cinema de Albert Lewin e é justamente essa busca do indefinível por personagens refinados (como o autor), mas que não conseguem se libertar das exigências materialistas do universo do qual em geral terminam prisioneiros. Ava faz essa cantora que envolve um toureiro e um piloto de automobilismo numa espiral de destruição, antes de imolar sua juventude no desejo do Holandês Voador, que só poderá se purgar da maldição que o consome se despertar o amor de uma mulher e ela será justamente a menos habilitada para amar, Pandora. Lembro-me de haver conversado certa vez, durante uma entrevista com Betrand Tavernier, sobre este filme cuja estética ele definiu como ‘très Las Vegas’, deplorando que Lewin e Cardiff se entregassem a ambições puramente referenciais ou a aquilo que chamou de ‘estética da reprodução’. É curioso, mas quase 50 anos depois – o filme é de 1951 – tive a impressão de haver assistido hoje ao nascimento do pós-moderno. Ava Gardner, de qualquer maneira, é um assombro de beleza, mas eu a prefiro nos filmes noir de Robert Siodmak (‘Os Assassinos’), ou então como Maria Vargas, a condessa Torlato-Favrini de ‘A Condessa Descalça’, de Mankiewicz, ou ainda como heroína de Tennessee Williams (‘A Noite do Iguana’) e também a lendária Lily Langtry de ‘Roy Bean, o Homem da Lei’, de John Huston. Mesmo com o risco de se decepcionarem, recomendo que vejam ‘Pandora’. O filme e seu autor são casos limites na produção de Hollywood. A própria Ava também era. Ela adorava os touros e era a primeira a admitir que não resistia a um homem. Mankiewicz valeu-se disso para lhe oferecer seu maior papel. Em ‘A Condessa Descalça’, Ava representa uma ninfômana voltada à frigidez. Remarkable woman! A ela se aplica a definição de Chartles Laughton sobre a personagem de Marlene Dietrich em ‘Testemunha de Acusação’, de Billy Wilder.