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Cultura » A Mostra, de sexta a domingo

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Luiz Carlos Merten

17 Outubro 2006 | 12h33

Como vou viajar de quinta a sábado, não terei tempo de postar muita coisa nos primeiros dias da Mostra. Aqui vão, antecipadamente, algumas informações sobre filmes que estarão sendo exibidos no período (de sexta, data da abertura para o público, a domingo). Fique atento – alguns já têm até data de lançamento e, assim, talvez seja melhor arriscar em programas mais alternativos, aqueles cuja estréia ainda é duvidosa, embora, depois de passar na Mostra, a maioria dos filmes termine sempre chegando ao cartaz.
BABEL – O fecho da trilogia de Alejandro González-Iñárritu sobre as relações entre pais e filhos ganhou o prêmio de direção em Cannes. É um painel impressionante sobre como um tiro acidental no deserto africano, atingindo uma turista americana, tem antecedentes e desdobramentos que repercutem em três continentes. O autor quer demonstrar sua tese – só a tragédia nos une, sem compaixão não há salvação. Implico um pouco com o filme porque acho que, mais do que Amores Brutos e 21 Gramas, ele exibe o artifício dramático que Iñárritu e o roteirista Guillermo Arriaga usam para armar seus amplos painéis sobre a vida no mundo globalizado. Babel estréia em janeiro, lançado pela UIP, que acredita nas indicações do filme para o Globo de Ouro e, talvez, para o Oscar. No Rio, Iñárritu disse que não acredita muito nas chances de seu filme na Academia de Hollywood. O tipo de crítica que ele faz não é o que agrada aos acadêmicos, o diretor acredita.
CAMINHO PARA GUANTÁNAMO – Michael Winterbottom divide a direção com Mat Whitecross, montador de Nove Canções, deste docudrama que discute uma aberração jurídica dos EUA de George W. Bush – a base de Guantánamo, em Cuba, na qual são confinados, sem direito a assistência legal, prisioneiros suspeitos de atividades terroristas. O filme foi premiado em Berlim (Urso de Prata), mas esteve longe de ser uma unanimidade.
A COMÉDIA DO PODER – Claude Chabrol dirige Isabelle Huppert na história da magistrada que investiga caso de desvio de dinheiro público. A personagem é sob medida para Isabelle – autocontrolada, fria e cínica. Na vida privada, seu casamento está desmoronando. O título brasileiro é perfeito. Em francês, é A Embriaguez do Poder, mas o que Chabrol cria é uma comédia para expor que, se a corrupção é um fato, o combate que muitas vezes se faz a ela passa ao largo da ética e obedece a outro tipo de objetivo ou interesse, coisa que você pode verificar no Brasil, atualmente.
C.R.A.Z.Y. – LOUCOS DE AMOR – O filme do canadense Jean-Marc Vallée conta a história de uma família dividida. Um dos filhos é gay reprimido e precisa aceitar-se, para ser aceito pelo pai. É um filme bonito e triste, que permite uma ponte com o clássico Rocco e Seus Irmãos, do Visconti, meu filme favorito. Em ambos, a tragédia é que é preciso um sacrifício humano para unir as pessoas. A tese não é muito diferente da de Babel (leia adiante).
DIAS DE GlÓRIA – O filme do norte-africano Rachid Bouchareb ganhou o prêmio de interpretação masculina em Cannes, dividido entre todos os seus atores. Chama-se Indigènes no original e conta a história desses marroquinos e argelinos que deram a vida pela França, durante a 2ª Guerra Mundial, servindo de bucha de canhão sem a contrapartida do seu direito à identidade ou à nacionalidade, porque eram das colônias na África.
EL LABERINTO DEL FAUNO – O filme do mexicano Guillermo Del Toro que poderá concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro conta uma história fantástica sobre o fundo da Guerra Civil na Espanha. Existe este oficial franquista (e brutal) cuja mulher está grávida e cuja filha, de um casamento anterior, é a princesa que descobre o labirinto no qual está o fauno da lenda, que pode levá-la a cumprir seu destino.
ESBOÇOS PARA FRANK GERHY – O dublê de arquiteto e escultor filmado por Sydney Pollack. O filme passou em Cannes como aperitivo para a Master Class que o cineasta deu no festival, em maio. É elegante, tem classe e difere bastante das últimas melosidades que o Pollack andou fazendo, comprometendo seu passado de diretor importante (com clássicos como A Noite dos Desesperados e Mais Forte Que a Vingança/Jeremiah Johnson).
FLANDRES – O francês Bruno Dumont recebeu seu segundo Grand Prix do júri, em Cannes (o anterior foi por L’Humanité, em 1999), por este filme sobre um sujeito meio bronco que vive feito um animal, trabalhando, fazendo sexo e lutando na guerra. Dumont costuma ser comparado a Robert Bresson, talvez pelo tema da graça. Mas enquanto Bresson a busca na transcendência, Dumont espera encontrá-la na baixeza. O filme é forte, mas parece que o diretor arreglou um pouco no desfecho, quando o cara voltava para a aldeia e matava todo mundo, final que ele mudou. A última cena a gente discute depois, para não tirar a graça. Dumont recebeu seu prêmio da mão de MIchelle Yeoh e agradeceu ao produtor Jean Bréhat, de outro premiado, Dias de Glória (Indigènes).
HONOR DE CAVALLERIA – Tinha três candidatos à Caméra d’Or quando integrei o júri que atribuiu o prêmio em Cannes, em maio, mas fui voto vencido em todos. Os três eram filmes latinos, um paraguaio (Hamaca Paraguaia), um mexicano (El Violín) e este, ibero-americano, do espanhol Albert Serra. Nunca gostei do Don Quixote do Orson Welles. Ainda bem. Meu Quixote é este, radical como construção dramática e com um uso genial do som (o vento, as armaduras de lata, que lembram Bresson, Lancelot du Lac).
O CÉU DE SUELY – O filme do Karin Aïnouz que ganhou o Festival do Rio concorre à Mostra Brasil, que vai dar prêmios em dinheiro para a melhor ficção e o melhor documentário, a título de incentivo à distribuição. A história da mulher que transforma o próprio corpo em prêmio de uma rifa é linda, narrada com extrema economia, e triste, muito triste. A atriz Hermila Guedes é fora de série. Mereceria um prêmio à parte.
OS INFILTRADOS – Minha terceira decepção consecutiva com o Scorsese. Agora não tem mais jeito. E é o terceiro filme dele com o Leonardo DiCaprio, após Gangues de Nova York e O Aviador, o pior dos três. Sei que tem gente que vai amar. Ótimo! O amor é livre, sejam felizes, mas eu tô fora.
PROIBIDO PROIBIR – Jorge Durán, 20 anos depois de A Cor do seu Destino, assina este filme sobre um triângulo de amizade, mais que de amor, contra o fundo das tensões sociais no Fundão, no Rio. Durán foi o grande injustiçado pelo júri da Première Brasil, no Rio. Não levou nada, e olhem que o filme é muito bom. Merecia.
CLIMATES – O turco Nuri Bilge Ceylan fala de amor e sexo por meio de um casal em crise como os dos filmes de Bergman e Antonioni. O filme meio que desconcerta, mas Ceylan não é burro não.
VOLVER – Mais do que no filme que leva o título, Almodóvar fez aqui Tudo Sobre Minha Mãe. É um filmaço vencedor do prêmio conjunto de interpretação feminina em Cannes. Entra logo em cartaz (em novembro), mas duvido que o público troque este filme por algum miúra que talvez nunca estréie nos cinemas brasileiras.
SONHOS DE PEIXE – O filme que o russo Kiril Mikhanovsky realizou no Nordeste tem, lá dentro, a história de A Máquina (do João Falcão). Concorreu à Caméra d’Or, em Cannes, e eu achei que tinha um lado muito exótico (capoeira, festas, pesca), mas, se lhe interessa saber, os irmãos Dardènne, que presidiam aquele júri, acharam o olhar do Kiril muito justo.
ANCHE LIBERO VA BENE – Outro filme que concorria à Caméra d’Or, em Cannes. Marca a estréia do ator Kim Rossi Stuart na direção. A história trata da complicada relação entre pai e filho. A mulher foi embora, para ser prostituta; o marido, que a ama, a aceita de volta também por causa do garoto, mas ela volta a se prostituir. O ‘líbero’ do título se refere à posição no time de futebol e o filme é bom.
OS 12 TRABALHOS – Ricardo Elias, de De Passagem, fez um filme que parece muito linear sobre a cultura dos motoboys de São Paulo, mas o olhar dele é tão preciso, tão cuidado, os atores são tão maravilhosos que é difícil, senão impossível, resistir a esse trabalho de um diretor mais maduro no exercício daquilo que se chama de mise-en-scène.
O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS – O filme do Cao Hamburger sobre o garoto cujos pais entram na clandestinidade e ele deveria ficar com o avô, mas o velho morre e o menino é adotado pela comunidade judaica do Bom Retiro, ganhou o prêmio do público no Festival do Rio. Se repetir a dose, leva os R$ 400 mil que a Petrobrás dá, na 30ª Mostra, a título de incentivo à distribuição. É muito bonito.
12:08 A LESTE DE BUCARESTE – O filme vencedor da Caméra d’Or, o prêmio para o melhor filme de diretor estreante, em Cannes. O cara é Corneliu Porumboiu. Não acho que fosse o melhor, mas é muito interessante, discutindo, num programa de TV, a participação popular na queda de Ceasescu, ditador da Romênia. Os comunistas tiranizavam em nome do povo; os capitalistas celebram a libertação do povo e o povo nem aí… Porumboiu tem tanto humor que, na hora de agradecer o prêmio, disse que talvez tivesse de agradecer a ele mesmo, pela tenacidade em realizar o projeto. O cinéfilo que adora estar em sintonia com as novas tendências deve prestar atenção no cinema que vem da Romênia. No ano passado, A Morte do Sr, Lazarescu, de Cristi Puiu, ganhou o prêmio da mostra Un Certain Regard, em Cannes. E era maravilhoso, melhor até do que o filme de Porumboiu.
A SCANNER DARKLY – O filme que Richard Linklater, o diretor de Antes do Amanhecer e Antes do Entardecer (ou do Pôr-do-Sol, nunca me lembro), adaptou de Philip K. Dick volta ao recurso que ele empregou em Waking Life – a filmagem com atores que é transformada em animação. A trama trata de drogas na Los Angeles futurista e o filme já nasceu cult, embora não tenha me impressionado muito.
CARTOLA – O documentário que Lírio Ferreira e Hilton Lacerda fizeram sobre o grande compositor conta a história do Cartola, do Brasil que ele atravessou, do começo do século passado à ditadura, e do audiovisual brasileiro. Era o meu favorito ao prêmio de documentário da Première Brasil, no Festival do Rio, mas o júri preferiu À Margem do Concreto, do Evaldo Mocarzel, imagino que pela dimensão política e social, porque, como cinema, não é tão bom.
SERRAS DA DESORDEM – Deu a louca no júri de Gramado, que achou que podia dividir, impunemente, o prêmio de melhor filme entre Anjos do Sol, de Rudi Lageman, e o filme do Andrea Tonacci. Não gosto muito, mas respeito. É difícil? É, mas o problema não é por aí. Acho que a história do índio que sobrevive ao massacre de sua tribo e atravessa o País aculturado interessa ao Tonacci menos pelo personagem, em si, do que pela possibilidade que ele lhe oferece de falar de coisas que o interessam como autor – o auto-isolamento, a dificuldade de comunicação e por aí afora. Quando digo aculturado quero dizer que ambos, o índio e o Brasil, são aculturados no filme do Tonacci, o que é uma forma de discutir a questão do índio e a do branco, ambos alienados de suas raízes.
IT’S WINTER – O filme do iraniano Rafi Pitts vai ser distribuído no Brasil pela Pandora, o que significa que você não precisa ir correndo ver. Mas foi o melhor filme do Irã em Berlim, em fevereiro, embora o júri tenha preferido o simpático Fora do Jogo (Off Side), do Jafar Panahi.
UMA VERDADE INCONVENIENTE – No documentário de Davis Guggenheim, o ex-vice-presidente Al Gore bate pesado na política (ou despolítica) ambiental do presidente George W. Bush. Como ser contra? Talvez sendo contra o filme como cinema…
CANDY – O filme do australiano Neil Armfield chegou a Berlim com panca de campeão. Por conta do Oscar, todo mundo achava que Heath Ledger era imbatível como candidato a melhor ator, mas a história da pintora talentosa que se une a aspirante a poeta e os dois viajam no inferno das drogas terminou não ganhando nada. Mas tem uma coisa interessante no filme. Pior que a droga é o inferno da família, que só piora as coisas ao tentar salvar a garota.
MESTRES AMERICANOS JOHN FORD/JOHN WAYNE: O CINEASTA E A LENDA – O documentário de Sam Pollard sobre a tumultuada relação entre o grande diretor e o astro de seus maiores westerns desfaz alguns mitos. O maior deles é a própria amizade, em si. Ford era um tirano que exigia submissão de Wayne e o espezinhava. Os filmes dos dois não ficam menores por isso, mas você vai ver Depois do Vendaval, Rastros de Ódio e O Homem Que Matou o Facínora com outros olhos.
FORA DO JOGO – Sempre preocupado em discutir a condição da mulher na sociedade iraniana, Jafar Panahi, diretor de O Círculo, fala aqui de futebol e mulheres. Elas não podem entrar em estádios no Irã, mas querem e se disfarçam como homens. O filme é bom, não grande. O prêmio que recebeu em Berlim deve ser creditado à personalidade (política, feminista) da presidente do júri, Charlotte Rampling, que defendeu muito suas escolhas, quando a encontrei, no Festival do Rio.
O CROCODILO (Il Caimano) – O filme do Nanni Moretti sobre Berlusconi era aguardado com a bomba política do Festival de Cannes deste ano. Não teve o impacto esperado, mas é forte. Algumas escolhas (de música, por exemplo) do autor poderão provocar polêmica maior do que a crítica ao político que manipulou a mídia para se manter no poder.
INFÂNCIA ROUBADA (Tsotsi) – O filme vencedor do Oscar de melhor produção em língua estrangeira deste ano (o mesmo prêmio que Cinema, Aspirinas e Urubus pleiteia para o ano que vem) é muito bom. O sul-africano Gavin Hood adapta o original de Athol Fugard sobre este homem que briga num bar e sai a toda velocidade, de carro, descobrindo um bebê no banco de trás. O que fazer com ele? Na verdade, o que fazer com os dois?
A ÚLTIMA NOITE – Altman solta a câmera entre os participantes da última edição do lendário programa de rádio A Prairie Home Companion, que era apresentado por 558 emissoras dos EUA nos anos 70 e 80. A cultura musical e política do Meio-Oeste, a base de sustentação de Bush, é colocada em discussão, mas eu confesso que não tenho mais muita paciência pelo que não deixa de ser a fórmula do Altman. É divertido, de qualquer maneira, ver aquele elencão – e Meryl Streep canta!
A SOAP – A história da mulher insatisfeita que se envolve com o transexual parece barra-pesada, mas é narrada com delicadeza pela diretora Pernille Fischer-Christensen. Não é para todos os gostos, mas o prêmio que recebeu em Berlim não foi despropositado.
THE WIND THAT SHAKES THE BARLEY – O Ken Loach do ano. Filmaço que usa fatos ocorridos na Irlanda, nos anos 20, para discutir temas atuais – a divisão da esquerda e, por meio das tropas de ocupação inglesas, a política do premier Tony Blair de apoio a Bush no Iraque, mesmo que uma só palavra não seja pronunciada a este respeito (a ação, afinal, é muito anterior).